Atleta da Semana – Taiane Fragassi


O formato de entrevista de hoje vai ser um pouco diferente. Deixamos a atleta à vontade para falar sobre si, e ao longo da entrevista, fizemos algumas perguntas. Boa leitura!

   Apresentação

Quando ainda era criança, na faixa dos 12 anos de idade (se me recordo bem), eu tive o primeiro contato com a luta, mas não com o jiu-jitsu. A escola que eu estudava trouxe a proposta de aulas extracurriculares para quem interessasse, dentre elas balé, música, algumas outras que não lembro mais, e o judô. A ideia foi da minha mãe, e também, nenhuma outra aula despertou em mim tanto interesse quanto o judô. Eu tinha problemas de disciplina na época, principalmente queixas por brigar e bater nas pessoas, e na minha cabeça entrar no judô ia me ajudar a ser mais forte, só que não foi bem assim. Fiz apenas 1 ano, por que a escola ficou sem verba pra manter, mas tive melhoras significativas no meu comportamento, mas infelizmente não foi dado continuidade. Anos mais tarde, agora já no início da fase adulta, com meus 18 anos, retornei ao judô.

Eu estava namorando um rapaz, hoje meu marido, faixa azul de judô, e na época marrom de jiu-jitsu. Ele tentou me convencer a fazer jiu-jitsu, mas como eu já havia feito judô preferi o judô. Eu ainda não conhecia como o jiu funcionava, por isso não me atraia. Aos poucos, com o passar dos meses, comecei a perceber que as posições no solo, chamado de NE WAZA no judô, me deixavam muito mais confortáveis que as quedas. Era mais instigante, literalmente como um quebra cabeça, havia uma infinidade de posições e variações, o que me deixou apaixonada.

Foi ai que eu desejei com todas minhas forças treinar jiu-jitsu. Migrei das quedas pro solo, finalmente eu tinha me encontrado. Eu permaneci no judô por mais um tempo, treinando as duas artes, mas quando tive que abrir mão de um, por conta do tempo, eu não pensei duas vezes.

E tudo se encaixou perfeitamente, casei com meu Sensei, não tenho problemas com reclamação por conta de treino, não sofro por falta de treino (a gente armou tatame em casa), ele sabe como me orientar como ninguém, e ambos somos apaixonados pela arte suave.

  • Fale um pouco sobre seus títulos, treinamento, estratégias de luta…

Os meus 3 títulos mais recentes são os de Campeã peso e absoluto no Campeonato Brasileiro de Jiu-jitsu em Feira de Santana, Campeã peso e absoluto no Campeonato Pan americano de Jiu-jitsu no Rio Grande do Norte, e Campeã peso e absoluto no Campeonato Mundial de Jiu-jitsu em Feira de Santana, todos realizados pela FIJJD esse ano.

Vai fazer 1 ano que eu e meu marido mudamos de cidade, e ainda estamos tendo dificuldade para estabilizar a rotina dos treinos, mas sem parar de treinar. Ainda não nos organizamos para abrir academia própria, que era o que possibilitava o treino mais intenso independente dos horários onde a gente morava anteriormente. Aqui nós treinamos em 2 academias diferentes, de segunda a quinta. São metodologias diferentes, jogos diferentes, mas, o que poderia ser empecilho, pra mim tem sido bastante proveitoso. As muitas percepções da arte suave, do que se pode realizar na luta, tem me favorecido quando me deparo com a diversidade dos estilos de luta nos campeonatos.

Sobre a estratégia de luta, não existe fórmula mágica. Na semana da checagem eu percebo se minha adversária é alguém já conhecida por mim, e no próprio treino tento corrigir as falhas que posso ter cometido anteriormente, e agir nas falhas delas. Se for alguém desconhecido, eu tento impor meu jogo, meu ritmo, sem me abrir muito, até por que, ainda não conheço o estilo de quem estou lutando, quando consigo perceber alguma falha em determinada posição, eu passo a investir naquilo.

  • Como você vê a participação das mulheres nas competições? Você acha que as academias tem mais mulheres praticando? Por qual motivo você acredita?

Como mulher, competidora, é difícil pra mim lidar com a discrepante diferença da participação masculina e feminina nos campeonatos, mas essa é um realidade que não se restringe às competições. Infelizmente, em todas as academia que já fiz parte/treinei, nunca havia mais de 3 mulheres no tatame, rara eram as vezes, nas visitas, etc. E nas que eu visitei, que haviam uma quantidade significativa, 6 ou 7, apenas 1, no máximo 2, eram competidoras.

Na capital, a quantidade de mulheres treinando era muito superior do que onde estou agora, a quantidade de academias também. Aqui em Jequié, conto nos dedos a quantidade. Possuímos 4 academias na cidade, e nem o dobro de meninas treinando.

Minha realidade hoje é treinar apenas com homens, e em mais de 80% dos treinos semanais, sou a única mulher no tatame.

Talvez se houvesse mais apoio ao público feminino nas competições, gratificações nos absolutos independente da quantidade, já que nunca atingimos a quantidade mínima para premiação, as mulheres almejassem mais competir. E a respeito dos treinos, pelo menos aqui, ainda há muito preconceito em relação ao jiu-jitsu, e por incrível que pareça, preconceito do próprio público feminino, como se jiu-jitsu fosse grosseiro, para homens, e como se a luta fosse “agarração”. Infelizmente ao convidar amigas para treinar já ouvi comentários como: “ficar me agarrando com homens?! Não mesmo.” , ou “não quero ficar masculina.”.

  • Você tem uma atleta que te inspirou/inspira?

A primeira pessoa que me inspirou foi o meu Sensei, meu marido (risos). Eu achava o máximo ver ele lutar, e ele me incentiva a lutar desde o início. Apenas com 3 dias de treino eu competi pela primeira vez, e perdi feio (risos). Com o tempo fui conhecendo outras pessoas, algumas meninas que vi lutar de perto, como Virna Jandiroba, que hoje tá arrebentando no MMA. E das mais conhecidas, amo Mackenzie Dern, do meu tamanho, do meu peso, e com uma desenvoltura maravilhosa no jiu-jitsu, ganhando até para pedreiras como Gabi Garcia, que também amo.

  • Tem algum projeto, participa de algum projeto social ou não?

Em Salvador, sob comando do meu Sensei, a gente gerenciava um projeto social levando jiu-jitsu à crianças na Avenida peixe, que é um local com altíssimo índice de violência, inclusive alguns dos nosso alunos, com apenas 10 anos, já estavam envolvidos com o tráfico de drogas. Uma associação religiosa, chamada Associação Bom Samaritano nos cedeu o espaço, e além do jiu-jitsu, eles acompanhavam aquelas crianças dando orientações, alimento, etc. Nosso coração quase se partiu quando tivemos que nos mudar, isso por que, através do jiu-jitsu nós criamos laços de amor verdadeiro com cada uma daquelas crianças, inclusive alguns já começavam a sonhar em serem professores de jiu-jitsu, lutadores, etc.

Aqui, de antemão, já tenho em vista um projeto apenas para mulheres, mas ainda está em fase de organização.

  • A família te apoia?

Minha família ama o que faço. Inclusive, meus tios já fizeram até vaquinha entre eles pra me enviar para lutar na Argentina, onde fui campeã no meu peso.

E meu marido não precisa nem falar, ele me ensina tudo, é meu maior apoiador.

  • Tem interesse de seguir carreira? Ser professora ou algo dentro do esporte?

Seguir carreira como competidora é algo que a qualquer momento vai ter que dar uma parada. Ano passado eu passei por um período de pausa nas competições. Uma gestação inesperada, que acabou sendo interrompida naturalmente, mas que me deixou de molho por mais de 5 meses. Foi bem chato ter que ficar sem treinar, mas mais doloroso ainda ter perdido o bebê. Meu plano AGORA é esse: estou competindo até que outro guri apareça (risos). Mas a pausa é só por pouco tempo, eu realmente amo competir, amo treinar, é algo que me enxergo fazendo até enquanto ainda tiver forças.

  • Considerações finais

Jiu-jitsu para mim foi autoconhecimento.

Toda a filosofia da arte me faz refletir sobre a vida, e tudo que já passei, todas as pessoas que já conheci, me provam o poder transformador de realidade que um esporte pode exercer sobre quem pratica.

No tatame não existe espaço para preconceito, para diferença social, de gênero, de visão política, etc. No tatame todo mundo é igual, todo mundo é aluno, todo mundo precisa de todo mundo, até por que, ninguém consegue treinar jiu-jitsu sozinho.

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