O silêncio


Buzinas, fumaça, tropeço… Um moinho de vento e poeira dançando por entre os carros estacionados. Um cheiro de café vindo de uma padaria logo pela manhã. As bancas de revistas carregadas de letras negras e de situações incongruentes: Juiz janta com investigados em festa…

Viver o problema do outro, do outro lado do mundo, para quem sofre da áspera capacidade da empatia humana, é como viver numa luta contra o Tyson no auge de sua carreira. Socos no estômago de minuto a minuto pela tela do computador. Viver um problema em casa, trabalho, família e sociedade, lhe deixou ansiosa. As compras semanais e gastos desnecessários no cartão de crédito sinalizaram a ansiedade de Andrea. Ela procurou ajuda, estava começando a não sentir mais nada:

– A atividade física libera alguns hormônios que lhe deixará mais calma, é uma ótima opção terapêutica e não utilizaremos de fármacos no seu tratamento. Disse o médico.

– Nossa, eu nunca fui de me exercitar doutor, nunca tive uma boa relação com isso na escola.

– É exatamente isto que iremos trabalhar no seu caso, as relações. Você é muito introspectiva e precisa dialogar mais com as pessoas. Com várias pessoas. Além do mais, reconheço que sua preocupação com diversas coisas, ao mesmo tempo, estão te deixando assim.

E ela saiu do consultório aos risos, projetando imagens engraçadas de como se sentia desajeitada com trajes esportivos. Uma amiga já havia lhe comentado sobre a preocupação com os casos de violência contra as mulheres:

– O que você acha do jiu-jitsu? – Perguntou Andrea para a amiga.

– Nossa! Sério? Não acredito! Respondeu.

– Estou falando sério, amiga!

– Me sinto muito feliz e mais tranquila, se você optar por ele!

E na primeira visita a academia, Andrea notou a presença consideravel de mulheres treinando, porém, as que estavam eram muito determinadas. Instruções sobre o treino e logo iniciou o aquecimento com todos aqueles movimentos curiosos e novos para ela. A temperatura corporal elevando, sudorese… A ventilação forte nos pulmões entre os intervalos das posições. Andrea estava exausta e dolorida no final do treino, mas, possuída por uma leve e tranquila sensação entre a ofegante respiração. Naquele dia o sono não foi o problema. Os remédios não eram mais necessários.

Os ponteiros pareciam rastejar, indiferentes a curiosidade dela. O que será que vai rolar hoje? Será que me dei bem no primeiro dia? Uma cascata de curiosidades caindo sobre seus trabalhos na empresa. Já se passaram alguns meses de treino e hoje é dia de reunião. Todos se apressam para encontrar com a gerência no auditório. Foi prometido mudanças importantes na estrutura empresarial que ela passava 8 horas por dia. E realmente, mudanças transformadoras que afetariam os ânimos de todos os presentes:

– Quero em nome da empresa, saldar todos os funcionários pelos excelentes números crescentes em vendas e lucros, mesmo enfrentando um cenário de crise. Disse o diretor geral.

Um misto de alívio e uma sensação de trabalho cumprido relaxava os músculos dos ombros de Andrea, que conferia algumas manchas adquiridas no treino do dia anterior em suas pernas, enquanto o CEO continuava a palestra:

– Quero também informar que, alguns postos de trabalho começarão a ser preenchidos por terceirizados.

O olhar sereno deu lugar a pupilas dilatadas, Andrea não entendia como num ambiente positivo poderia ocorrer uma medida tão ofensiva a seu cargo. Contratar terceirizados sairia mais barato para a empresa e, estes funcionários poderiam trabalhar mais. Ao seu lado, um amigo lhe acompanhava na preocupação.

E como um chapéu ou uma boina, ou qualquer adereço que se encaixe na cabeça e deixe uma leve pressão não muito incomoda, Andrea foi para o treino naquele dia. Parecia estar em qualquer lugar, menos vestida num quimono e aquecendo para o treino. Aquele treino que lhe devolveu o sono e um pouco de alegria, entretanto, não conseguiu fazer efeito naquele dia. Ela ficou deitada em sua cama por horas e horas pensando no quanto aquela mudança iria afetar sua vida.

No dia seguinte, se deslocou para o trabalho com uma vontade de finalizar tudo que estivesse pendente ou que fosse trabalho novo. Muito sono ainda, de uma noite mal dormida e dores do treino do dia anterior. Conseguiu desenvolver suas tarefas, mas era inegável o cansaço que, temporariamente, descia por sua garganta a cada xícara de café forte e quente. Em alguns dias, o acúmulo de sono estava atrapalhando seu desempenho e, na mesa ao lado, seu colega foi demitido… Depois outro, e outro…

A situação começou a chegar no tatame, o desempenho empolgante da atleta Andrea começou a dar vez a um ritmo de luta mais lento, menos determinado. Não demorou para os amigos de treino prestarem ajuda:

– Vamos lá, Déá!!! Passa, passa!!!

– Bora 50, 50!!!! Rápido, rápidoooo!!!!

Mas a moça não conseguia acompanhar o ritmo, até que sentou no canto da parede, isolada, ninguém foi lá pra saber se estava tudo bem. O que chegou foi uma brisa irônica de uma “brincadeira” entre o grupo:

– Tempo ruim o tempo todo! Quem não aguentar, pule do barco!

Um leve tremor em suas bochechas, flexionando seus lábios superiores e mostrando um sorriso de canto de boca, meio sem graça, meio que sem sentir-se mais do grupo, do bairro, da cidade… Ela lembrou do primeiro dia, de como tudo aquilo era mágico e lhe fazia bem. Agora, só ficou o esquecimento do quanto ela se esforçou e se dedicou para elevar seu nível técnico rapidamente. Os elogios foram dando vaga a críticas, o pertencimento ao grupo foi dando vaga para a desilusão. Ela foi saindo da aula com os dedos deslizando sobre os ombros cansados, doloridos, alongando o pescoço de olhos fechados e quando abriu, se deparou com a seguinte frase em letras rubras na parede: Jiu-jitsu para todos!

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