A prática do jiu-jitsu: de onde viemos e para onde vamos


Houve um tempo, sobretudo entre as décadas de 1970 e 1980, em que os praticantes de jiu-jitsu eram considerados marginais por conta das atitudes arbitrárias de uma minoria que assim foi qualificada pelo fato de usar o aprendizado para cometer atos de violência. Tais atitudes tinham por finalidade provar a supremacia do jiu-jitsu sobre as demais artes de combate, sobretudo contra os representantes da luta livre.

Talvez muitas dessas atitudes possam ser entendidas, embora não justificadas, pelo fato de que os treinos desse tempo eram levados muito a sério e as competições específicas de jiu-jitsu eram escassas ou inexistentes, então, a questão saía do plano da academia e invadia as ruas ou as academias alheias. Nesse tempo, a rivalidade era diretamente proporcional ao tamanho da fé que os praticantes tinham no seu aprendizado.

Ora, é inegável que os tempos mudaram e hoje podemos ver o jiu-jitsu tratado como uma das lutas de combate mais eficientes, porém, há um item que foi perdido nessa mudança histórica que incomoda em demasia a velha escola do jiu-jitsu e ela pode ser identificada por um antagonismo entre a prática antiga e a prática atual, ou seja, a imagem da modalidade melhorou, mas os treinos nas academias “amoleceram” com o passar do tempo.

Para quem não conheceu ou não sabe do que se trata, o treino “à moda antiga” era considerado insano. Na velha escola os praticantes treinavam todos os dias da semana até o corpo não suportar mais. Não era raro treinar até vomitar, até pedir pra parar, até o corpo não obedecer mais, até gritar pela mãe! Se o professor dissesse que o aluno daria dez “rolas” de dez minutos, seriam dez e sem chance de desculpas esfarrapadas. O treino físico era composto por exercícios funcionais muito puxados que serviam para dar apoio ao jiu-jitsu. Os horários eram assiduamente cumpridos sob o risco de o retardatário ter que treinar com todos os que chegavam no horário ou ficar “pagando apoio” até a falha.

Acredite, podem parecer exagerados os relatos acima, mas se fazia tudo isso por paixão e amor a quem ensinava, aos colegas de treino, à equipe e ao tatame. Havia um orgulho imensurável de praticar o jiu-jitsu, independentemente do tamanho do esforço que se fazia para estar ali, justamente por ser uma prática para poucos. Os principais adversários estavam dentro da academia e se faziam representar pela superação, pela força de vontade, pela busca de ser melhor a cada dia, de vencer aquele companheiro de treino que parecia invencível e pela conquista da graduação regada a dor, suor, lesões, orelha estourada e dedos tortos.

Se por um lado as mudanças que ocorreram com o passar dos anos na prática tornaram o jiu-jitsu mais acessível, mais popular e mais rentável, por outro, e infelizmente, também trouxe para o tatame uma quantidade enorme de praticantes que treinam por “modinha”, que entram nas academias para ter um hobby, para ter uma luta para chamar de sua e para alimentar as suas redes sociais com poses de kimono, sem suor na cara, sem cabelo quebrado e sem nenhum hematoma no corpo, ou seja, a grande perda que as mudanças trouxeram para o jiu-jitsu está exatamente no tipo de praticante que estamos formando.

Muitos que estão lendo este artigo podem estar discordando das palavras acima dispostas, mas se você acha que estas afirmativas estão fora de contexto, pare e pense em quantas pessoas treinam ao seu lado naquela preguiça, que chegam atrasadas para fugir do treino físico, que fazem uma, duas repetições da técnica e já encostam pro lado, que dão apenas “um rolinha” e nada mais, que treinam uma, duas vezes por semana, que não honram com o pagamento e manutenção da academia, que em qualquer intervalo pegam o celular, que quando graduam não querem mais fazer a parte física e técnica, que dizem “hoje não vai dar pra mim” porque o kimono está molhado ou rasgado, que está chovendo, que o cachorro está com depressão, que matam a família toda, que arrumam desculpas infinitas para não entrar numa competição e por aí vai. E mais, quantos professores você conhece que são coniventes com tudo isso, porque para estes academia boa é academia cheia?

Na velha escola do jiu-jitsu, se o aluno faltasse ao treino tinha que ter uma boa justificativa e a partir do momento em que ele estivesse no tatame era para treinar, treinar e treinar até a exaustão, o que nos faz ter certeza que o professor exigia o máximo de cada um. Hoje, se um professor exigir de um aluno nesse nível é grande a probabilidade de reclamação e evasão porque eles estão mal acostumados. Trata-se também, sem sombra de dúvida, de uma geração difícil de lidar, que não está disponível para regras, que enxerga o jiu-jitsu como algo passageiro e totalmente substituível se não estiver na sua medida, que entra na academia apenas para posar como lutador, que não dá o sangue para merecer uma graduação e prefere até pagar por ela se for preciso. Este aluno, infelizmente, talvez nunca saiba o que é treinar o verdadeiro jiu-jitsu.

Observemos então que há uma culpa de mão dupla em toda esta questão, o que nos leva à necessidade de refletir, como professores e alunos, sobre os direcionamentos do treino de jiu-jitsu para o futuro, pois a sobrevivência dele enquanto uma arte milenar depende do praticante que fecha a cara e treina, que repete até cansar, que respeita o tatame e de um treino que não seja necessariamente exaustivo ou para fazer passar mal, como era na velha escola, mas que retome a eficiência, a verdade, a essência do aprendizado de todas as artes marciais e onde o aluno possa acreditar que treina o jiu-jitsu real com um professor comprometido e não essa imitação que se espalha por aí.

É importante que fique claro que nem todos abandonaram o modelo antigo de treinamento e prova disso é que os melhores resultados vêm justamente das academias mais conservadoras. Também é fato que somos rodeados de problemas, limitações e até temos o direito de arrumar desculpas para qualquer coisa na vida, mas quando se trata de treino sério e da sobrevivência do jiu-jitsu é óbvio que este formato que hoje se aplica em várias academias e que é abraçado por muitos professores está longe de ser o jiu-jitsu de verdade, o que nos leva à triste constatação de que os alunos inseridos neste tipo de treinamento não podem dizer que praticam o jiu-jitsu, mas alguma modalidade derivada dele, algo mais leve, recreativo e menos desgastante, talvez um jiu-jitsu criado por professores que fingem ensinar para alunos que fingem aprender.

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Comments 2

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  1. Eu tinha péssima impressão dos praticantes de jiu-jítsu. Sempre os vi como arrogantes que treinam porque gostam de bater nas pessoas. Quando eu era jovem nos anos 80 aconteceu muito disso e as academias estimulavam porque aí todo jovem as procuravam para saberem se defender. Foi uma época muito ruim, a imagem de um jovem forte, com cachorro bravo e camisetas do jiu-jítsu era o uniforme dos violentos Pitboys. Já teve muita gente ruim envolvida nessa luta. Hoje parece que mudou, os processos, as câmeras de segurança, a mídia, a opinião pública “acalmaram” a fúria imotivada dessa gente. Hoje vê-se projetos sociais e uma preocupação de transmitir alguns valores éticos para que as agressões não mais ocorram e parece que estão sendo bem sucedidos nesta nova etapa, os jornais já não trazem frequentemente notícias de lutadores/agressores. Parece que a história do Jiu-Jítsu vai ter um final feliz para a maior parte da sociedade que não treina e quer só viver em paz e para os lutadores também que estão sendo respeitados e não temidos.

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