Treinamento do tempo de reação no jiu-jitsu


Desde o início de minha vida no jiu-jitsu, senti a necessidade de me aproximar de discussões e temas mais avançados sobre o treinamento. Desse desejo surgiu minha vida acadêmica e, como declarava o camarada Chê: “O conhecimento nos torna responsáveis”. A sede curiosa se tornou agora uma responsabilidade em apresentar tais debates para o público. Já discutimos em vários textos sobre a importância de uma gama de conhecimentos de diversas áreas para potencializar o treinamento e os resultados deste no jiu-jitsu. Discorremos sobre uma utilização da energia mental e física mais eficiente e precisa, alimentação, descanso etc. Trago mais novidades para seu treino.

As leis do treinamento esportivo demonstraram no percurso histórico uma evolução ao sair da fase descritiva, aproximando-se da ciência, que baseia-se em observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos. Não podemos deixar de dizer que o acesso a estas informações são restritos e que há um movimento de desvalorização a certos tipos de conhecimentos em nossa sociedade. São poucos os veículos que discutem ou apresentam um conteúdo baseado em pesquisas cientificas, artigos acadêmicos. Nada contra o empirismo, ele é o ponto de partida para a realização de um trabalho especializado.

Durante muitas aulas, e por estar na maioria delas desenvolvendo e observando a performance dos alunos, como diria Mauri de Carvalho, em seu livro Judô: Ética e Educação, em busca dos princípios perdidos, o Sensei deve voltar a sua atenção ao desenvolvimento orgânico e funcional do judoca (podemos estender ao atleta de Jiu-jitsu, tendo em vista que as técnicas e as valências, de um modo geral, trabalhadas são as mesmas), tento seguir estas leis acompanhando seus resultados, e tenho boas histórias para contar. Todavia, o tempo para desenvolver as capacidades, de uma forma mais ampla é muito curto. O que nos faz optar por prioridades do calendário.

A velocidade de reação e tomada de decisão são fundamentais para o domínio do adversário, tendo em vista que na Arte suave se antecipar ao ataque pode definir uma luta, ou tal antecipação pode render uma bela saída de uma finalização, defender uma projeção, um ataque. Estar sempre à frente do adversário. Acredito que você já deve ter pensado nisso, mas como treinar estes aspectos já que são tão fundamentais e pouco discutidos? Irei explicar brevemente o que é o tempo de reação e sua importância para a arte suave.

Trata-se do tempo entre a exposição a um estímulo e a primeira reação ou primeiro movimento realizado para evitar ou contrapor a tal exposição. Fisiologicamente o percurso é o seguinte:

Aparição de um estímulo no nível receptor > A propagação do estímulo ao SNC > A transmissão do estímulo pelo caminho nervoso e a produção do sinal efetor > A transmissão do sinal do SNC para o músculo > O estímulo do músculo para desempenhar o trabalho mecânico.

Em poucas palavras, visualizamos aquele momento que a adversária, no início do treino nos surpreende com um ataque em nossa perna (single-leg). Observamos o ataque, nosso SNC recebe a informação, analisa e responde ao músculo uma reação ao estímulo, que pode ser simples ou complexa, dependendo do nível de aproximação que tenho ao estímulo.

Tal capacidade ou valência é treinável de forma:

  • Repetitiva, quando colocamos a atleta para responder um estímulo visual, podendo ser alterada as condições de desempenhar a tarefa. Ex: Antecipar e reagir a pegadas e entradas de golpes da oponente, chamada de guarda, passagens de guarda, raspagens.
  • Analítica, fazendo com que a atleta desempenhe uma tarefa ou elemento técnico sob condições mais fáceis.
  • Sensomotor, que ajudará na velocidade de raciocínio e na qualidade de tomada de decisão da atleta, potencializando as funções cognitivas (atenção sustentada, respostas motoras, capacidade inibitória que é responsável pela avaliação antes da ação). Um dos instrumentos utilizados para desenvolver tal capacidade são estímulos visuais ou auditivos que não precisam ser trabalhados necessariamente nos treinos. Duas pesquisas acadêmicas, desenvolvidas em atletas de judô e de Jiu-jitsu trabalharam estes estímulos visuais com simuladores semelhantes ao jogo Simon, facilmente encontrado disponível para smartfones. Os resultados foram positivos para ambos, onde foi relatado uma significante melhora no tempo de reação dos atletas, claro, levando em consideração leis da individualidade biológica.
  • Reação seletiva, onde a atleta aprende uma resposta padrão para um dado elemento técnico (defesa de passagem de guarda), depois é apresentada uma variação da reação padrão (outro tipo de defesa). A atleta a partir das respostas apresentadas vai selecionar qual das variações é mais eficiente, e numa fase posterior, se aproximará de outras habilidades de defesa e contra-ataque apropriadas para uma situação (uma finalização defendendo uma passagem de guarda, uma projeção defendendo-se de outra).

Tentei de maneira breve sugerir e apresentar o treino de resposta rápida e seus benefícios. Claro que depende de um diálogo com nossos professores acrescentar ou não tais perspectivas de treinamento dentro de seus programas, porém, podemos trabalhar alguns aspectos fora do tatame ou antes da aula iniciar. Quanto maior o nível de informação o atleta se aproxima as respostas positivas mais rapidamente aparecem. E claro, leve sempre em consideração que o sucesso no desempenho requer o diálogo com as outras leis do treinamento esportivo. Qualquer dúvida a respeito do tema, entre em contato com nossa página.

Bons treinos, Oss!

Referências bibliográficas

BOMPA, Tudor O. Periodização: Teoria e metodologia do Treinamento; Tradução de Sérgio Roberto Ferreira Batista – São Paulo: Phorte Editora, 2002

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