Jiu-jitsu: o esporte da paz e não da violência


 

Caros leitores:

            Resolvi escrever uma pequena carta falando sobre a associação do jiu-jitsu com a violência. Em especial da associação que é feita quando a vítima da agressão é uma mulher. Não raramente vemos reportagens mostrando mulheres vítimas de agressões. Infelizmente esta é uma realidade diária na vida de muitas brasileiras, ou seja, serem agredidas por homens ignorantes, prevalecidos, sem educação, sem respeito, sem cultura e criminosos. Pior ainda a situação em que são agredidas por homens com grande acesso à educação e cultura.

            Esta situação, apesar de cotidiana na vida das mulheres no Brasil, parece ter um agravo quando o agressor é praticante de jiu-jitsu. E por qual razão esta associação acontece? Vejamos alguns pontos:

1- A questão histórica do jiu-jitsu: A arte suave foi por muitas vezes (e ainda é), erroneamente, associada com a violência. O Mestre Hélio Grace anunciava em jornais no Rio de Janeiro desafios valendo dinheiro para quem os derrotasse. Na década de 50 isto aconteceu muito. Talvez pelo apelo que era necessário na difusão e divulgação da arte suave, a mesma foi gradativamente sendo associada com a violência. Entretanto, o ponto chave não era, e nem nunca foi, associar o jiu-jitsu com a brutalidade e selvageria violenta. Antes, ao contrário, era demonstrar que com uma técnica adequada seria possível se defender de agressores maiores e mais fortes. O tempo passou e com a popularização do jiu-jitsu, em especial nas décadas de 80 e 90, vieram os famosos bad boys. Tal grupo não passava de uma minoria que utilizava-se das técnicas aprendidas para brigar e para se autoafirmar. A divulgação tendenciosa de uma imprensa despreparada contribuiu para a imagem ruim que a arte suave sofreu. E até hoje lutamos para mudar esta imagem.

2- A culpa de uma imprensa mal preparada e preguiçosa: A internet deu voz às pessoas. E isto é fantástico! Entretanto, o acesso a informação e a visão crítica para filtragem da informação são aspectos bastante distintos. Neste contexto, vemos de forma muito seguida, se noticiar que “o agressor é lutador de jiu-jitsu”. Em qual área da atividade humana não existem ‘agressores’? Qual a necessidade de se associar a violência com a arte suave? Infelizmente é apenas ignorância de quem escreve. E prefiro nem considerar a possibilidade de ser má vontade. Ser ou não praticante de jiu-jitsu não torna uma pessoa agressiva. Antes, ao contrário, vemos inúmeros relatos e testemunhos de pessoas que controlaram suas atitudes agressivas pela prática deste esporte maravilhoso! Vivemos uma era de muitas críticas, mas de pouca visão crítica. É mais simples para alguém preguiçoso usar uma imagem pré-formada de um esporte que era associado erroneamente com violência do que escrever de forma mais profunda e esclarecedora. A isto se chama imprensa preguiçosa. É necessária uma tentativa de polemização para se atrair leitores. Como se a violência já não fosse polêmica o suficiente.

3- Alguns maus exemplos atuais: Existem pessoas que praticam jiu-jitsu e se tornaram famosas. Não é, naturalmente, interessante se citar nomes. Mas algumas destas pessoas públicas que deveriam lutar por uma boa imagem da arte suave, ao invés disto, tentam se autopromover com o chamado trash talk (uma forma de se desdenhar de outra pessoa, normalmente oponente, falando-se mal). A visão de uma pessoa arrogante é ruim para a imagem do jiu-jitsu. E vai contra os princípios marciais do mesmo. Respeito, humildade e dedicação são palavras que devem ser associadas com este esporte. Arrogância, autopiedade, desrespeito e prepotência não combinam com a arte suave.

4- Os casos bons não são enfatizados: Quantas vezes a utilização do jiu-jitsu já salvou uma vítima de tentativa de agressão? Inúmeras. Mas estas tantas vezes em que o exemplo é bom não são divulgadas com a mesma ênfase dos maus exemplos. O jiu-jitsu já evitou estupros, assaltos, agressões físicas, bullying, já transformou vidas que se encaminhavam pra perdição para vidas exemplares, já deu oportunidade de trabalho para muitas pessoas, já permitiu mudanças sociais locais significativas e muito mais. Entretanto, para nossa tristeza como praticantes, tais exemplos são muito menos divulgados do que aqueles que contrastam com estes.

            Será que existem pessoas agressivas (e que são agressores) treinando jiu-jitsu? Certamente há. Mas tais pessoas não são o representativo da maioria absoluta dos praticantes que lutam diariamente para promover a visão correta da arte suave. A arte suave é um esporte de paz, de amor, de autocontrole, de altruísmo, de importância coletiva e individual, de transformação, de crescimento, de segurança e de autodefesa. Jiu-jitsu não torna a ninguém violento, mas o violento pode se utilizar do jiu-jitsu como se faz de qualquer outra coisa. Por estas razões decidi escrever esta coluna. Porque também sou praticante de jiu-jitsu, porque apesar de ser homem (e colunista da BJJ Girls Mag com muito muito e muito orgulho!) sou contra a violência física, porque creio que o jiu-jitsu é um esporte que promove amizades, respeito e paz.

            Tenha em mente que não é o jiu-jitsu que leva a pessoa a se tornar um agressor, mas sim a sua própria personalidade e vida.

            Bons treinos e paz!!!

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Comments 7

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  1. gostei muito do seu texto, eu sou um que sempre associei os praticantes de jiu jitsu ao mal e a violência. Fui jovem nos anos 80 e vi muita maldade de praticantes dessa arte, espancamentos, agressões, provocações até o leigo perder a paciência iniciar uma briga e ser massacrado. Tomei horror de ver gente desse esporte andando com cara marrenta com um cachorro bravo do lado. Contudo venho lendo mais e percebo claramente que vocês mudaram (ou talvez tiveram que mudar) e hoje famílias frequentam as academias e as notícias de violência dos praticantes de jiu jitsu são até raras. Fiquei muito feliz em ler esse texto honesto e concordei com tudo. Ainda fico temoroso quando passo por alguém de kimono mas isso vai passar.

  2. Marcelo, acho que a questão não que “vocês mudaram (ou tiveram que mudar)”. No passado, a minoria dos praticantes do jiu-jitsu (que são os que o usavam forma errada) eram mais expostos pela mídia que os bons exemplos. Hoje em dia a situação está se equilibrando, por isso temos conhecimento de que “hoje famílias frequentam as academias”. Mas SEMPRE existiu praticantes conscientes da Arte Suave, só não eram mostrados porque o interesse na época era polemizar para vender mais, ter mais audiência. Espero ter ajudado 🙂

    1. Boa Tarde Heloísa,
      Ajudou sim, sempre que alguém vai na direção do bem, condenando atitudes violentas está no caminho certo.
      Nos anos 80/90 não foi uma atitude deliberada da imprensa para vender mais, houve um aumento súbito e real de agressões dos praticantes de artes marciais muitos estimulados pela academias para que mais gente as procurassem para aprender a se defender. Claro que a estratégia deu errado e muitas pessoas se afastaram prejudicando os negócios. Tomada de consciência dos mestres, câmeras de segurança, processos e midia marcando em cima colocaram o jiu jitsu num bom caminho novamente, hoje sei que orienta para que evitem confronto, excluem os irremediavelmente violentos etc.
      Já está havendo um encontro feliz entre a sociedade leiga, que quer viver em paz, e os que apreciam as lutas e as praticam exclusivamente nos tatames.
      Um Oss de leigo de pra ti 😉

  3. Muito bem escrito e esclarecedor mas ainda acho que quem treina tem mais possibilidades de iniciar uma agressão do que quem não se mtete nesse meio de brigas e lutas.

      1. Sabe Professor Brenno, Eu tinha umas ideias muito equivocadas do jiu jítsu e seus praticantes, achava uma coisa do mal mesmo, mas tenho lido me informado e veja que na balança trás mais benefícios do que prejuízos as pessoas e a sociedade. Eu custei muito para acreditar nisso mas se recusar a mudar num pensamento errôneo é burrice. Muito obrigado por sua atenção e continue formando atletas/cidadãos. Um abraço, Ricardo.

Jiu-jitsu: o esporte da paz e não da violência

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