Anseios


“Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!”
Florbela Espanca – Versos de orgulho

Minha relação com o mundo sempre foi muito simples: dificuldades nunca me deixaram down, mergulhada num mar de mágoas e culpas. Eu tenho a sede do desconhecido, do novo, não sei se sou forte o suficiente mas sei do que posso suportar. Aliás, o que é ser forte? É ter nascido mulher? Acredito que isto basta para continuar no caminho. Minha casa é uma mala de coisas úteis, não carrego pesos que não irei usar.

De longe as pessoas não topariam a metade das coisas que já passei com tão pouca idade. Estradas, encontros, despedidas… Afastar da família. Às vezes me pergunto o que procuro, mas logo passa, como mais uma cidade que morei. Pessoas, histórias, treinos e mais treinos, que me deixam felizes e outros que me dão mais sede de continuar em frente. É incrível como as coisas se tornam tão difíceis por ser mulher e jovem. Por ser bonita. Por ser guerreira e sozinha, independente. Por não desistir fácil. Alguns se aproveitam disso, haha! Sorte a deles.

Minha mãe não queria que eu fosse estudar e trabalhar tão longe dos seus cuidados, sempre me alertando para os perigos na estrada. Mas foi mais difícil não ter o curso que eu queria na minha cidade. Vejo muita gente falando: -Faça o que você ama e não terá que trabalhar um só dia. Incrível a fé da humanidade. Trabalho sempre será trabalho, sempre será metas e planejamentos do patrão. Mesmo assim me identifico muito com minha área, sempre alerta claro, tenho um olhar cuidadoso a estas coisas. Inclusive estou sem um agora. E o jiu… Nossa… parece que o mundo não existe mais, só restaram todos aqueles colegas que estão rolando uns com os outros. Uns mais gentis outros mais ríspidos. Outros muito mais ríspidos ainda. Não se trata de decepção mas é muito triste saber que as pessoas perdem um tempo, coisa cara no nosso mundo, para se concentrar em tirar a paz do outro.

É perceptível que nós mulheres temos que nos esforçar mais para obtermos um certo respeito também dentro do tatame, não se trata de virar uma lenda, um mito, uma deusa da caça do jiu-jitsu destruindo o Órion do preconceito, não por amor, para provar que posso estar entre estes caras grandes, e eles não precisam se preocupar se vão me machucar, se for de boa intenção não machuca, machuca muito mais quando se negam a treinar comigo… Chega a dar insônia. Posso te finalizar gigante, 5 minutos sem perder a amizade? Ficam as piadinhas.

– Essa menina, Bruna, é forte para uma menina hein!
– Você não tem noção.

Tudo muito simples, sair da academia arrumada da mesma forma que entrei determina que sou uma atleta Barbie? Modinha? Surpresa! As coisas são determinadas pelas aparências. Um mundo de aparências, nem precisa pensar muito. Inclusive, agora parece que está tudo bem em nosso país. Todos os problemas de um tempo atrás se resolveram da noite pro dia. Aparências… Ou conveniências?

Meu tamanho, fisicamente falando, não te mostra as noites de sono estudando para concursos, não te mostra que tenho que cuidar do meu sobrinho pela manhã bem cedo e que tenho que estar na faculdade pela tarde. Você só enxerga o óbvio. Que não é tão óbvio assim quando passo sua guarda e você me machuca com “vergonha” das risadas dos colegas. Ou quando quase se lesiona defendendo uma finalização minha. Nestas horas deixo de ser Barbie? Delicada? Mulher? Deve ser foda para eles, muito do que aprenderam na vida veio de uma mulher e depois ser moldados a ter que submetê-las.

Claro que são apenas alguns minutos com estas situações, logo vem outro rola e outro ser humano totalmente diferente. Homem ou mulher. Sim! Algumas meninas disputam da mesma forma, nem percebem que estão fazendo o que recebem. Que estão reproduzindo. Faz parte, já me sinto acostumada, sutilmente vou aceitando algumas atitudes e isso certamente transformou minha personalidade, moldou uma armadura que me protege cotidianamente de olhar para este poço tão profundo. Olho para frente, tento mudar algumas coisas através do diálogo e em alguns casos consigo êxito. Em outros… Melhor nem comentar.

Quando esqueço de por minha armadura as noites são difíceis, frias e escuras. Não há ninguém no mundo que me console pois o erro foi meu. Isso mesmo, o erro foi meu. E daí vão se costurando novas partes nela, preenchendo os espaços que estavam abertos, situando minhas fraquezas. Isso já virou rotina, seja aqui onde estou, seja onde irei amanhã, as coisas se repetem, as relações se repetem. Me moldo pela vontade de superar de seguir em frente de ser forte, de onde vem esta vontade? Percebo não ser tão forte assim as vezes…Seria mais fácil se percebêssemos que somos todos da mesma matéria, que não precisássemos usar mais armaduras.

Consigo sempre superar as adversidades pois sonho mais alto que os problemas, não por deixar apenas eles de lado, mas por tentar de alguma forma superá-los. Faço escolhas nem sempre certas, mas o que vier delas determinará meu próximo passo, em frente, escondendo o medo ou até aceitando. Mas não paro, nem no tatame nem na vida. Tive o infortúnio de nascer num mundo de vicissitudes que não me agradam, mas eu tenho o mar na mesma esfera. Eu tenho as flores, tenho uma seara de desejos… A possibilidade de um encontro ou até de um desencontro. Por mais que eu ande ou lute eu não consigo me afastar da minha vontade infinita. Tenho a juventude, tenho este desabafo.

Bom fim de semana à todos!

Qual sua reação

Curtir Curtir
0
Curtir
Amei Amei
0
Amei
Haha Haha
0
Haha
uau uau
0
uau
Triste Triste
0
Triste
Grr Grr
0
Grr

Comments 0

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anseios

log in

reset password

Voltar para
log in