Período de transição no treinamento


2016 foi um turbilhão de acontecimentos em diversas esferas de nosso cotidiano. A cada dia uma novidade acelerava os nervos e acalorava diversas discussões sobre política, economia, intolerância religiosa, machismo, feminicídio. Humores alterados e o estresse tocando a campainha de nossas mentes, e contra isso, nada melhor do que pegar o nosso Jiu-jitsu Gi seguir nosso caminho para a academia.

É lá que para muitos, são deixados para trás todo os dilemas e insatisfações em prol de uma sensação formidável de deleite e calma, provenientes da liberação dos hormônios dopamina, serotonina, endorfina. Quase que uma reprodução do sentido oriental do Dojo (local do caminho) onde algumas práticas budistas eram realizadas. Um local para despirmos das vestes cotidianas e nos encontrarmos num estado de consciência de silêncio e atitude, respiração e cansaço, suor e as vezes lágrimas.

Me preocupo um pouco se esta relação é saudável no sentido racional, como disse Bertrand Russell: “O homem dividido contra si mesmo procura estímulos e distrações, ama as paixões fortes, não por razões profundas, mas porque momentaneamente elas lhe permitem evadir-se de si próprio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.” Como também entendo que não precisa ser uma fuga para muita gente.

Um encontro com pessoas que possivelmente tiveram ao longo do dia alguns contratempos que se materializam numa passagem de guarda mais rígida, numa queda mais violenta. São seres humanos iguais a você, sabia? Não estranhe a pergunta, é compreensível no seio de uma sociedade competitiva as vezes perdermos a empatia, principalmente se fisiologicamente recebermos contribuições como nosso ritmo cardíaco acelerado e a supra renal disparando doses de adrenalina. Em nossas responsabilidades de atleta não podemos esquecer que temos algumas competições e claro, temos que evoluir tecnicamente. Isso simbolicamente nos remete a sérias cobranças.

Não podemos deixar de falar que em nosso ambiente desportivo também nos relacionamos com o Sensei. Este cidadão que resolveu compartilhar dos seus conhecimentos e que as vezes encara 5 ou 6 turmas por dia. A relação de prazer neste caso é substituída pela obrigação de trazer informações atualizadas aos alunos, estudar, planejar e executar aulas. Apesar de toda a energia, vitalidade, conhecimento técnico e estímulo aos alunos, lá bem escondido está também um ser humano que responde aos mesmos estímulos que você.

Nossa atividade que era nossa melhor parte do dia se tornou um problema? Não exatamente.

Assim como nos afastamos um pouco de nossa realidade naquelas 1 hora e meia de treino precisamos nos afastar um pouco do nosso Jiu-Jitsu. Os mais apaixonados dirão: – O que é que este maluco está falando? Posso explicar. Não é uma solicitação a uma separação forçada, apenas temos que entender que alguns processos, diferente do que o senso comum abraça como axiomas, nem sempre beneficiam a performance do atleta. Não é sobrecarregando-se físico e psicologicamente que os resultados ou objetivos irão aparecer, muito pelo contrário, podemos alcançar o indesejável.

Acabamos de transitar de 2016 para 2017, algumas academias deram recessos de duas ou três semanas. Alguns atletas aproveitam este período para viajar com a família ou simplesmente se entregar a uma boa pausa. Nenhum problema. É exatamente sobre este curto período e sobre a importância dele que queremos falar. A literatura do treinamento desportivo solicita, indica e ressalta a importância do período de transição para o atleta.

O período de transição consiste em uma curta pausa de maneira ativa entre um calendário esportivo que se encerra e outro que inicia (recomenda-se de 1 a 2 semanas no mínimo e no máximo 5), aplicado a atletas de alto rendimento ou não, visando a manutenção psicológica, fisiológica e técnica, causando uma forte vontade no atleta de treinar novamente. Alguns especialistas citam o período de transição como principal fator de minimização da fadiga do SNC (Sistema Nervoso Central) contribuindo na prevenção de algumas síndromes como overtraining ou Burnout. A utilização deste período precisa ser planejada dentro do calendário do atleta competidor ou não, de acordo com seus objetivos.

Neste período, há o intuito de reduzir o volume e a intensidade de nossos treinos diários, enfatizando exercícios de diferentes naturezas dos que são realizados regularmente. A literatura também indica a troca de ambiente ou meio que o atleta treina para favorecer o processo (atletas que treinam no meio líquido como nadadores treinam no solo e quem treina em ambiente fechado treinar ao ar livre), alcançando assim uma variedade de exposições aos grupos musculares, quebrando a rotina e recompondo o atleta mentalmente. É um período importante também para avaliar se o trabalho realizado está alcançando o que foi planejado.

Os atletas que optam por um período de transição passivo são acometidos por alguns distúrbios psíquicos como dores de cabeça, insônia, exaustão, tensão, falta de humor, falta de apetite, e depressão. Todos os sintomas estão relacionados a abstinência do treinamento, pois são reduzidos os níveis de testosterona e beta endorfina (composto neuroendócrino que causa sensação de euforia pós treino). O primeiro efeito observado nos atletas é a perda de velocidade pois há uma elevação nos níveis químicos de na+ e c1- no músculo, o que causa uma degradação proteica. Força e frequência dos impulsos nervosos são afetados pela diminuição de unidades motoras recrutadas durante contrações repetidas, perda de potência e resistência.

O afastamento temporário contribui em diversos aspectos, mas o que se sobressai é o processo de relaxamento e descontração do atleta competidor ou não. A alteração do ambiente de treino melhora as condições motoras de uma maneira geral. Tenho certeza que logo após a execução, de acordo com o planejamento, até o próprio treino do Jiu-jitsu ficará diferente. O lazer é parte fundamental, ou melhor, essencial na vida do ser humano. Não precisa esperar até o fim de 2017, aproveite que estamos ainda no início do ano. Oss!

Leia também:

REFERÊNCIAS

BOMPA, Tudor O. Periodização: Teoria e metodologia do Treinamento; Tradução de Sérgio Roberto Ferreira Batista – São Paulo: Phorte Editora, 2002

LOWRY, Dave. O Dojo e seus significados: um guia para os rituais e etiquetas das artes marciais; São Paulo: Pensamento, 2011.

RUSSELL, Bertrand. A Conquista da Felicidade. Tradução José Antônio Machado. Lisboa: Guimarães, s/d.

TUBINO MJG, Moreira SB. Metodologia Científica do Treinamento Científico, 3ª Edição, Rio de Janeiro: Shape, 2003.

Revista Filosofia ciência & vida, ano VIII n 108, p75.

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