Quando a dor te corta


Mas vem a dor feito enchente
Levando o sol, te carregando pro escuro
Levando preces, milagres
E agora eu morro de pressa de chegar ao futuro.
(
Leoni)

A dor lombar interrompeu seu pesado sono, junto com as outras dores pelo resto do corpo, o cansaço de um fim de semana sem descanso pesava seus olhos, mas o que a perturbava não eram os sintomas… Levantar e arrumar-se para mais uma nova semana, The show must go on!, a canção do Queen veio junto com o pensamento, e uma lágrima descuidada acreditou que poderia participar do evento.

Durante o percurso até o banheiro, percebeu na parede o bilhete da mãe que sempre saía cedo para o trabalho, o silêncio da casa era preenchido pelos gritos dos colegas durante as lutas em seu pensamento… aquele grito que não saiu pela exaustão dos seus braços e todo o corpo atingia agora a garganta em forma de dor. Ela sabia que aquilo logo passaria, afinal não era a primeira vez, nem a última. Tratou de correr e achar consolo em suas antigas vitórias penduradas na parede de seu quarto, entre as fotos de premiações. Tratou de vasculhar sua memória por tantas e tantas vezes superar momentos difíceis.

Pouco importava o trajeto demorado pro trabalho, aliás era a religião que Marta gostaria de seguir naquele momento. Um foda-se pra tanta coisa que pouco importasse, mas é só por alguns dias, pensara. “Isso vai passar, tenho certeza!” repetia-se em sua mente como um mantra, de minuto a minuto. As lembranças transitavam igual aos carros caminhando lento no engarrafamento. E por não ter paisagem melhor para avistar, olhou no celular várias mensagens de consolo dos companheiros, uma cascata de “Oss” em sequência, pois pediu no grupo pouca atenção, estava inconformada com a derrota. Inconformada consigo… Chegou tão perto.

No trabalho, estranhamente se sentiu bem, embora houvesse as congratulações muita gente não voltava ao assunto, o que fazia por algum tempo uma breve ocupação em sua mente, melhorando razoavelmente seu humor, se fosse preciso ficar o dia inteiro ali desenvolvendo tais tarefas ela ficaria, só para fugir um pouco. Numa breve olhada nas notícias, sentiu um arrependimento embalado por um mal-estar e uma ânsia de vômito, cada parte do texto lhe afetava como um dedo na goela. Marta ficou estarrecida ao descobrir que não era a única no universo de abandono, são 5,5 milhões de crianças que como ela não possuem registro do pai. Sua mãe sempre cumpriu os papéis sociais, ainda que a humilhação não lhe deixasse um só dia, em cada recusa na procura de casa para alugar. Mãe solteira, trabalhadora… Não tem medalhas no seu quarto, pensou.

Uma súbita confusão de emoções passara em sua cabeça refletindo, refletindo, refletindo… Como pudera sofrer tanto com um resultado que não alterou em nada sua história? Como? Resolveu procurar ajuda de quem era mais experiente, deixou o dia dar conta das horas, deixou as imagens das lutas do dia anterior virem à tona, cada detalhe, cada pegada, posição, respiração. A finalização que não pegou e minou suas forças na luta final e o abraço da adversária reerguendo-a. Sua meditação isolada no canto do ginásio e o autoflagelo por não alcançar o objetivo. Angústia, náusea e raiva. Suor e um gosto de lágrima. Tudo ia perdendo o sentido e não causava o mesmo efeito.

Ao encontrar sua mãe, logo lhe ofereceu um caloroso e apertado abraço, junto com um carinho emocionado e um sorriso que doía no canto das bochechas. O ar de espanto e de satisfação de sua mãe acelerou seu ritmo cardíaco, que poderia ser percebido claramente por Marta.

– O que houve, mon Petit? – Perguntou sua mãe. Chamava Marta desde a infância assim, viu isso num filme e achou que era uma maneira exclusiva linguisticamente de acarinhar sua filha pelos ouvidos, trazendo conforto que só um carinho de mãe trazia.

– Nada mãe, só queria ouvir tua história mais uma vez.

– Filha, você não precisa de ninguém, o que você precisar eu estou aqui!

– Não é sobre isso mãe! Quero ouvir sobre suas lutas e suas vitórias.

O semblante de dúvida da mãe ia se desfazendo de acordo com cada passagem da vida contada. Cada detalhe de superação era uma dose de inspiração. Marta observava os braços da mãe já demonstrando os sinais da idade enquanto ela falava sobre o sobe e desce na procura de creche, escola, casa. Os braços que a seguraram sem chegar à exaustão. Sua mãe lhe contou dos preconceitos que sofreu e de sua amiga, confidente, quase irmã que faleceu por abortar um filho numa clínica clandestina. Ela tinha sido vítima de um estupro cometido por seu patrão, que lhe ameaçou de morte se ela contasse para alguém. Os soluços de saudade misturado com ternura e lágrimas deixavam gotas na mesa.

– Sofri tudo isso, filha, vi várias sofrendo, mas foi por você. Nunca desisti e nunca desistirei de você, mon Petit!

– E sem ganhar medalha alguma, né, mãe?  – disse Marta para alegrar o clima.

Os sorrisos ecoaram na sala, Marta estava revigorada e sabia que não poderia desistir fácil de tudo que ela objetivava, afinal, tinha um exemplo de superação em sua própria sala, cozinha, banheiro. Cada vão da casa era preenchido pela grandeza da luta de sua mãe. Foi acometida por uma dúvida que tomou o lugar da lembrança do campeonato: o que poderia fazer para mudar a realidade das pessoas? E pensava nisso com muito fervor. Pensava, pois, se a amiga de sua mãe não tivesse abraçado para si toda dor de ser violentada, ameaçada, estaria viva ainda. Que se isolar diante da dor da derrota não ajudava em nada. Diante de nenhuma dor…

Marta começou a participar dos campeonatos observando as pessoas que se sentiam como ela.

Iniciou suas pesquisas sobre violência contra a mulher. Imaginando um pódio que coubesse cada uma das 5,5 milhões de mães.

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