Jiu-jitsu: arte marcial, luta ou esporte?


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Um certo dia, estava vendo uma propaganda na TV e me deparei com a seguinte frase: Tudo que faz bem é esporte! Ok, amigo, tudo certo! Então, logo veio a velha ironia em meu pensamento, projetando imagens cômicas de pessoas colocando roupas leves e específicas de prática esportiva para visitar um amigo, namorar no parque, ler um bom livro à sombra de uma macieira… E se apropriando disso como esporte.

Até aí tudo bem, ninguém foi ferido por este sofismo publicitário, vida que segue, então. Mas, vamos atentar aos danos que uma falácia pode gerar?

Fui professor estagiário de Educação Física numa escola pública, e cabe perguntar: qual é a função social da escola? Posso garantir que não é reproduzir as “verdades” das propagandas, se fosse não precisaria de tanto tempo da vida do ser humano mergulhando em conteúdos e provas. Porém ela estava lá, com muito mais força e credibilidade que um mero professor com alguns textos e livros, argumentando com os trabalhos de outros professores que passaram anos de suas vidas estudando. E depois de tantos exemplos alguns ainda tomavam os conceitos midiáticos como verdade.

Havia o desconhecimento conceitual dos alunos sobre o que era esporte e o que era luta. E pode parecer bobagem, até você entender que relação tal desconhecimento tem com o lucro das empresas de material esportivo. Para título de conhecimento, a marca Nike cresceu entre 2014 e 2015, mais precisamente 7 bilhões, segundo a revista Forbes.

E o que isso quer dizer? Bem, digamos que, precisamos entender os fenômenos corporais historicamente criados e culturalmente desenvolvidos pela humanidade, sua origem, e o que determina sua utilização, para não cairmos no jogo do lucro atual. Ou então, para observarmos sua manifestação e podermos identificar estes fenômenos em sua essência, não na aparência.

Gostaria de fazer uma pergunta: você sabe dizer se o jiu-jitsu é arte marcial, luta ou esporte? Lembre-se sempre que o desenvolvimento intelectual também faz parte do treino.

Para que possamos chegar à resposta vamos observar os conceitos:

Arte marcial: Não há no meio acadêmico um consenso de como definir objetivamente o que é, porém alguns autores conceituam como práticas corporais que derivam da lógica de guerra. Disciplinas físicas e mentais codificadas em diferentes graus, com o objetivo de desenvolver seus praticantes para submeter ou defender-se de um adversário, podendo estes, utilizar de armas ou não. A palavra “marcial” vem de Marte, o Deus romano da guerra.

Luta: São práticas que possuem embates corporais, sem a obrigatoriedade de submeter o praticante às lógicas marciais, preservando traços culturais do país de origem. Alguns afirmam que nem toda luta é Arte Marcial, mas toda Arte Marcial é uma luta.

Esporte: Prática motora/corporal, orientada a comparar um determinado desempenho entre indivíduos ou grupos; regida por um conjunto de regras que procuram dar aos adversários iguais condições de oportunidade para vencer a contenda e, dessa forma, manter a incerteza do resultado. Com essas regras institucionalizadas por organizações que assumem (exigem) a responsabilidade de definir e homogeneizar as normas de disputa e promover o desenvolvimento da modalidade.

Após esta breve observação nos conceitos podemos encontrar alguns traços essenciais contidos no jiu-jitsu. Particularidades que ganham uma expressão mais forte diante do conceito. Como quando se fala de disciplinas codificadas em diferentes graus podemos visualizar os diferentes níveis de graduação que possui a arte suave. Sem esquecer do objetivo de submeter ou defender-se do adversário. Na questão “luta” acredito que fique muito claro.

Quando olhamos o conceito de esporte, é preciso pontuar que se trata de uma apresentação mais contemporânea da cultura corporal. Toma forma no século XVIII ombreando com a revolução industrial e incorporando as formas do novo modelo de produção/economia (capitalismo). Perceba, o que em outros modelos de sociedade como os jogos e lutas gregas a institucionalização ou a comparação de melhores performances ou recordes, treinamento e estudo focado no resultado não estão presentes.

Para simplificarmos o exemplo, o jiu-jitsu brasileiro incorpora estes quesitos de esportivização: possui suas federações que desenvolvem regras e divulgam eventos; alguns atletas treinam para competições incansavelmente e se aproximam de outras áreas como a nutrição para melhorar a performance e se profissionalizam. Entretanto, caminhando no sentido contrário da história, encontraremos o treino do jiu-jitsu como defesa pessoal, no Japão se transformou em outra arte, o Judô com suas características particulares, e já foi um método de defesa de monges budistas.

A arte suave foi tomando formas durante sua passagem nos diferentes períodos históricos. Incorporando fundamentos determinados por estes períodos. Num modelo como o Japão feudal e seu sistema político imperial centralizado, baseado no monopólio imperial da propriedade de terra e com disputas internas pelo controle deste império, o budismo, xintoísmo e confucionismo se incorporaram a lógica de guerra do Jujutsu. No final deste período, surge o mestre Jigoro Kano com sua proposta de arte marcial para o novo modelo econômico que o Japão começaria a introduzir, abrindo seus portos para o mercado ocidental. Ele acreditava que aquela forma de jujútsu era muito violenta e incompatível com os ideais modernos. Logo chega ao Brasil, já se industrializando, Mitsuo Maeda apresentando o Kano Judô e o Jujútsu ao patriarca Gastão Gracie. E nada disso ocorreu pelo alinhamento cósmico de planetas.

Percebeu o movimento?

Tanto a criação, o desenvolvimento e as modificações ocorridas no percurso de sua história foram realizadas pelo interesse humano pautado em sua realidade, digo, que o modelo econômico exerceu influência.

Por isso, podemos dizer que o Jiu-jitsu é uma luta, arte marcial e hoje é também um esporte, pois apresenta em sua essência todos os traços contidos em tais conceitos, o que o determina como é, e como é produção humana, está aberto a tomar outra forma ou significado, como já foi provado no percurso histórico: já foi utilizado por mulheres na luta pela igualdade (o movimento sufragista na Inglaterra coincidiu com a introdução das artes marciais japonesas na Europa); Jovens cariocas praticaram Jiu-jitsu para se impor, ostentando como uma arma suas marcas físicas (orelha de couve), no famoso fenômeno dos “Pitboys”.  Hoje, em diversas academias do país pessoas o utilizam por recomendação médica, por lazer, por filosofia de vida, para competir… Cada um dá sentido e significado, porém sua essência permanece (uma queda, torção de braço ou um estrangulamento não parece muito apropriado para se aplicar no tio no jantar de domingo, parece?). É o que nosso momento histórico, determinado por nossas relações sociais estão dizendo que ele deve ser hoje.

Qual o sentido e significado do jiu-jitsu pra você?

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Referências

Dicionário crítico de educação física / org. Fernando Jaime Gonzáles, Paulo Evaldo Fensterseifer. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005.

Pedagogia Histórico-Crítica e Educação Física / Adriano de Paiva Reis… [et. al] Organizadores. – Juiz de Fora: Editora UFJF, 2013.

Judô Kodokan / Jigoro Kano: Traduzido por Wagner Bull. – São Paulo: Cultrix, 2008.

CARDOSO, Bruno V. Briga e castigo: sobre pitboys e canais de fofoca em um sistema acusatório – 2005 (Dissertação de Mestrado/UFRJ.

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Comments 3

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  1. Jiu jitsu se tornou um estilo de vida maravilhoso. É uma maneira completa de manter corpo e mente saudáveis, além de ótimo meio de socialização. Oss!

  2. Eu evito me relacionar com quem luta.
    Quem sempre treina acaba querendo sempre se impor e não raro agridem.
    As pessoas passam a vida treinando para bater nos outros e num dado momento explodem em violência. Todo mês de notícia de praticantes de lutas agredindo pessoas em boates, no trânsito , etc Parece que essa prática das lutas , ao contrário do que pregam, aumenta muito a autoconfiança e a pessoa fica marrenta querendo resolver tudo na força.
    Vejo com muita reserva o ensino generalizado e sem controle das artes marciais.
    Marcelo Freire

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