Por que temos que ler o livro “Mulheres do Tatame: O Judô Feminino no Brasil”?


Nascemos em um meio onde tudo já está determinado, pessoas seguem cotidianamente para seus trabalhos, os carros se aglomeram pelas avenidas, os ônibus lotados…Tudo segue seu ritmo.

Nossa educação nos conta histórias de pessoas ou heróis que lutaram por ideais. Mártires ou carrascos, porém, não há um link, uma ligação da relação de tais fatos históricos com nossa realidade hoje. O hoje também é história!

Isso nos impacta, nos comprime o pensamento, nos induz a acreditar que não temos participação na mudança da realidade, se tudo é como aparenta, como posso modificar o que já está posto?

A ascensão das mulheres nos esportes considerados “de homens” no Brasil não se deu apenas pela percepção de igualdade e respeito, houve também enfrentamento, e numa época conturbada e de um conhecimento muito indigno. A ação de algumas mulheres exerceram força fundamental para provar que separar o que é de um gênero com a finalidade de domesticar não passava de uma estratégia ideológica.

Talvez você não saiba quem é Patrícia Maria, Cristina Maria, Ana Maria e Kazue Ueda. Mas saiba que elas deram o pontapé inicial na revolução esportiva feminina no nosso país. Diga-se de passagem, um dos países mais atrasados na inclusão de mulheres no Judô. E para que estas ganhassem espaço outras lutaram nos tatames da política, como Berta Lutz, representante brasileira na Liga das Mulheres Trabalhadoras, no ano de 1922, nos EUA. Lutz lutava pela defesa dos direitos jurídicos das mulheres quando estas não podiam votar e este era o contexto das mulheres no período, muito parecido com o “bela, recatada e do lar” solicitado em pleno século XXI.

As autoras, Gabriela Conceição de Souza e Ludmila Mourão fizeram um apanhado histórico, reunindo todos estes acontecimentos no livro Mulheres do Tatame: O Judô Feminino no Brasil (Ed. Mauad:FAPERJ, 2011), uma leitura necessária mesmo não se tratando do jiu-jitsu. Pois, não torna a luta das mulheres diferente nem anula a realidade de algumas práticas presentes em 1920 e, por incrível que pareça, estejam se repetindo em 2016.

Encontraremos os depoimentos das primeiras atletas brasileiras em competições internacionais, sem patrocínio, treinamento específico (muitas mulheres eram proibidas até de receber graduação), numa verdadeira batalha pela sobrevivência e também pela resistência da participação feminina no judô. Foram reunidos também em depoimentos, as causas de numa época como essa, estas guerreiras enfrentarem tanto preconceito e discriminação para praticar o caminho da suavidade, seja de forma esportiva ou como defesa pessoal.

Ao se aproximar desses registros, poderemos perceber de onde surgem tais práticas excludentes, e que estas não se expressam apenas com o intuito de preservar fisicamente as “sensíveis” mulheres. Que há um silenciamento na participação das mulheres nas lutas no Brasil. Que algumas práticas do passado ainda se fazem presente, mesmo com um absurdo avanço tecnológico e científico de nossa sociedade e por fim, que os patrocínios sempre giram em torno da lógica lucrativa, tendo em vista que o judô é um dos esportes que mais traz premiações ao nosso país, mais até que o futebol.

No mais, são mulheres como você, que lutaram por ideais iguais aos seus. Ainda que as regras do esporte delas sejam diferentes, o quimono, a força, determinação, as etiquetas e a realidade social são as mesmas. Boa leitura!

 

Referências

Souza, Gabriela Conceição de. Mulheres do Tatame: O Judô Feminino no Brasil. Rio de Janeiro: Mauadx : FAPERJ, 2011.

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