Mamães no tatame: é possível continuar treinando durante a gravidez?


Gravidez e exercício físico combinam? Um relatório encomendado este ano pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) mostrou que os riscos do esporte praticado durante a gestação são menores do que se pensa. Em uma matéria da BBC Brasil, a professora Kari Bo, da Universidade Norueguesa de Ciências do Esporte, afirma que não existem tantos estudos de qualidade sobre a gravidez e o esporte de alto rendimento, “mas parece que muitas continuam a se exercitar durante a gravidez e isso não as afeta de forma negativa. Não parece prejudicar a mãe e nem o feto”.

Muitos benefícios da prática esportiva quando se está grávida já são conhecidos, como o controle do ganho de peso, aumento da consciência corporal, prevenção da diabetes, da hipertensão gestacional, controle da ansiedade, diminuição dos índices de cesariana e prematuridade, além do bem-estar, tanto para o corpo, como para a mente. Um estudo feito com mais de 36 mil mulheres pelo Instituto de Saúde Pública da Noruega também revelou que o risco do bebê nascer com sobrepeso diminui com mães que se exercitam. Isso ocorre pois a atividade ajuda a manter os níveis de glicose sob controle.

Isabel atuando pelo Flamengo com uma barriga de grávida proeminente (Foto: Reprodução TV Globo)
Isabel atuando pelo Flamengo com uma barriga de grávida proeminente (Foto: Reprodução TV Globo)

Existem muitas recomendações para que as futuras mamães não fiquem paradas, mas as atividades mais indicadas geralmente são hidroginástica, caminhada, alongamento, ioga, pilates, dentre outras com menor impacto. O que muita gente não imagina é que algumas atletas de alto nível continuam treinando e até já competiram grávidas. Isabel Salgado é um exemplo sempre lembrado. A ex-jogadora de vôlei e mãe de quatro filhos seguiu as recomendações tradicionais na primeira gravidez e parou de treinar, mas nas outras, continuou treinando e até competiu. Ela lembra que sofreu muitas críticas, mas teve gestações saudáveis e se sentia bem praticando esportes.

Outras atletas de alto nível também já competiram grávidas, como foi o caso de Ingrid Kristiansen, que venceu a Maratona de Houston e disputou o Campeonato Mundial de Cross Country em 1983. Um caso mais recente é o de Eva Nystrom, que ganhou uma prova nacional de duatlo (corrida e bicicleta) já grávida. Porém, é importante ouvir a opinião do(a) médico(a) e respeitar os limites do próprio corpo, como fez Eva, que passou mal correndo e decidiu diminuir o ritmo, mas não ficou parada.

Mas e nas artes marciais? Nosso esporte geralmente está na lista dos “não recomendados” para a prática durante a gravidez, por conta das quedas e pressão na barriga. A penta campeã mundial de jiu-jitsu, Kyra Gracie, está no final da segunda gestação e não deixou de se exercitar em nenhuma das duas. Alongamento, exercício funcional, ioga e musculação leve estão presentes na rotina de Kyra, mas a campeã não treinou jiu-jitsu quando esperava Ayra, sua primeira filha e tampouco agora, grávida pela segunda vez.

Kyra Gracie em sua segunda gravidez. (Imagem: @livekyra)
Kyra Gracie em sua segunda gravidez. (Imagem: @livekyra)

Porém, já ficamos ansiosas quando alguma situação nos tira dos tatames por umas semanas, imagina ficar afastada por nove meses? Qual a saída então?

Claro que uma mulher grávida não deve continuar a treinar normalmente, inclusive pelo fato da arte suave não ser um esporte dos mais recomendados durante a gestação. Mas só de estar no tatame, com suas companheiras e companheiros de treino, o humor muda, o bem-estar vai lá para o alto e isso é ótimo para uma gestante.

Fabianna Mota, uma de nossas colaboradoras no Bjj Girls Mag, é faixa roxa, tem 31 anos e mãe de três filhos. Quando ia completar dois anos de treino, engravidou da filha mais nova. No início, confessa que desanimou um pouco, pois quando estava engrenando nos treinos, teria que parar. Porém, seu médico a liberou para fazer o aquecimento e algumas posições. No final, a barriga já pesava mais, mas não deixava de ir e ficava assistindo o treino.

Nossa colunista Fabianna Mota, seus filhos Ana, João e Marina e marido (Imagem: Arquivo pessoal)
Nossa colunista Fabianna Mota, seus filhos Ana, João e Marina e marido (Imagem: Arquivo pessoal)

Sua filha nasceu e ela não queria abrir mão do tempo com ela para ir treinar, mas depois acabou voltando. Na academia, os mais velhos ajudavam a olhar a mais nova enquanto a mãe treinava. Às vezes, Fabianna tinha que atender a filha no meio do treino ou sair mais cedo e tinha receio que a equipe se incomodasse com isso e com os choros da pequena. Mas todos entenderam a situação e seu professor a incentivou a continuar, pois o importante era ela estar no tatame e não parar de treinar. E assim foi, não parou e está firme nos treinos até hoje.

Outra mamãe jiujiteira é a Marília Medeiros, faixa azul de 28 anos, que treina há quase quatro. No ano passado, Marília engravidou, mas não parou de treinar. Acompanhava as posições e fazia a parte técnica até quase oito meses de gravidez. Marília exaltou a importância que a atividade física teve nessa fase. Ela era sempre elogiada nas consultas e nunca teve dores nas costas ou nas pernas.

Marília em sua gravidez (Foto: Arquivo pessoal)
Marília em sua gravidez (Foto: Arquivo pessoal)

A faixa azul voltou a treinar três meses depois que seu filho nasceu e ela e seu marido se revezam; um cuida do filho enquanto o outro treina e depois é a vez do outro, já que treinam em horários diferentes. E quando o marido não vai, ela treina em um espaço separado para ficar mais perto do filho. Marília vê benefícios também para o pequeno, que com quase um ano, já está acostumado com os tatames, sempre vai com todo mundo e se adapta fácil às situações. “Se alguém me perguntar se me atrapalha em alguma coisa, se algum dia eu quero parar, eu não quero nunca parar, meu objetivo é a faixa preta”, ressaltou.

Mesmo não tendo passando por uma gravidez, quando já se pratica jiu-jitsu, é difícil conciliar a vida de mãe, o trabalho e a arte suave. Esse é o caso de Jaqueline Matos, de 34 anos, que é faixa azul e também nossa companheira de equipe do Bjj Girls Mag. Seu filho mais novo ainda não tinha dois anos quando começou a treinar e, junto com o mais velho, ia para a academia com a mãe. Quando ele dormia, Jaque conseguia treinar, e quando não conseguia ficava com ele no cantinho. Ela conta que no início foi difícil conciliar a vida pessoal, o trabalho e o jiu-jitsu, mas se obrigou a conseguir, pois não queria parar de treinar.

Praticar exercícios durante a gestação é muito importante, mas não se esqueça de ter um acompanhamento médico e, principalmente, respeitar os limites do seu corpo. O ritmo não vai ser o mesmo, seu treino no jiu-jitsu será limitado em relação ao que você pode fazer. Mas não desista, nem que você fique ali no cantinho do tatame assistindo o treino. Jiu-jitsu é nosso estilo de vida e, com certeza, continuar perto dele durante sua gravidez só vai te fazer bem.

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Comments 4

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  1. adooorrreeiii!! meu nome er Ingrid nunca estive gravida mais pratico jiujitsu à algum tempo e sempre procuro saber tudo sobre a participação das mulheres no tatame…foi bom descobrir q msm gravidas as mulheres ñ precisam deixar d fazer oq tanto gostam!!!

  2. Fiquei muito feliz com a reportagem…hoje tenho 38 anos e acabo de saber qual vou ser mãe pela segunda vez, sou faixa azul de Jiu e ia começar os campeonatos…sei que terei que desascelerar mas não quero deixar o tatame. Vamos ver como me saio nessa.

  3. Gostei muito da matéria. Sou faixa roxa de Jiu jitsu e estou grávida de 4 meses do primeiro filho. O inicio da gestação foi complicado, cansaço extremo e muitos enjoos, mas agora que os piores sintomas passaram estou de volta aos tatames. Faço uma boa parte do aquecimento e algumas posições onde a barriga ainda permite e que o contato não causa riscos ao bebê. Apesar do kimono já estar apertado, rs, quero continuar participando dos treinos até o final da gestação e após o nascimento retornar os mais breve possível. O clima da academia é muito bom e ajuda muito com o estresse dessa fase de tantas mudanças. Oss

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