O efeito halo


Uma vez ouvi alguém falar que os jiujiteiros são as Testemunhas de Jeová da comunidade marcial e esportiva em geral. Ele explicou que conhece muitos praticantes que aproveitam qualquer oportunidade para falar sobre as vantagens do jiu ou contar aquela história daquele menino que foi salvo pelo jiu jitsu, ou aquele outro caso de alguém que mudou toda sua vida depois de começar treinar. Agora, eu não vejo nada de errado nisso, pois não tem coisa mais bonita que sentir orgulho e compartilhar a admiração e paixão (eu faço isso com cada texto que escrevo para a BJJ Girls Mag), porém tenho percebido um problema na comunicação que precisa ser resolvido.

Algumas das coisas que ouvimos num primeiro momento é “o jiu jitsu te dá mais autoestima”, ou “o jiu jitsu te faz mais forte”,  ou ainda “o jiu jitsu não vai te machucar tanto quanto outros esportes”. Como praticantes, prometemos tudo o que temos recebido durante nosso caminho, mas às vezes, mesmo sabendo dos sacrifícios, a dor, o suor e tudo o que está por trás dessa felicidade, esquecemos o grau de dificuldade ou intensidade de cada uma dessas coisas inerentes à prática do jiu jitsu, até porque essa felicidade é tão grande que as outras coisas não tão boas são colocadas em segundo plano.

Na Psicologia, esse fenômeno se chama “Efeito halo” e é descrito como a possibilidade de que a avaliação de uma pessoa, um objeto ou uma experiência influencie no julgamento de outros acontecimentos. Uma vivência relacionada ao efeito halo é o parto, pois mesmo sendo uma experiência dolorosa muitas mulheres não só continuam tendo filhos, mas também falam depois que não foi tão doloroso mesmo, e isso acontece até mesmo com mulheres que o tinham descrito como a pior dor da vida. Isso é atribuído ao fato de que felicidade de ter um filho saudável é maior do que a dor sentida no processo.

Na minha opinião, tem muitas pessoas que desistem rápido do jiu jitsu porque no começo é mais a dor dos músculos tensionados, o ardor por causa das pegadas, e a frustração das lutas perdidas, do que a felicidade por causa do aumento na confiança, na força ou na técnica. Claro, quem entra deve saber que nada é fácil, sim, mas nós, enquanto praticantes, temos também uma responsabilidade com o que falamos. Minha proposta é a seguinte: vamos parar de falar que o jiu jitsu muda vidas, emagrece, aumenta a autoestima etc., e falemos que o jiu jitsu tem o potencial de melhorar sua vida, sua saúde, fortalecer seu espírito.

Vamos falar que ele pode ajudar você a superar obstáculos, dificuldades etc. Porque afinal tudo isso depende só de você, de quem pratica, do que você dá para o Jiu Jitsu, de como você entra no tatame, como você interioriza os princípios marciais, de como você leva para fora os ensinamentos do mestre, da vontade que tem para aprender e ensinar, de sua postura na aula, sua atitude nas lutas, seu agradecimento nas vitórias e a humildade nas derrotas.

O BJJ só vai mudar sua vida se você estiver ciente do que deve ser feito e disposto a fazer o que for necessário para isso. Thomas Jefferson diz: “Se quer algo que nunca teve, então você tem que fazer algo que nunca fez.”

Bom fim de semana à todos! Oss

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