PROTAGONISMO FEMININO NOS JOGOS OLÍMPICOS


Apesar de você, amanhã há de ser um outro dia (Chico Buarque)

Os resultados obtidos pelas mulheres nos jogos olímpicos chamaram a atenção e a preferência do grande público. Estes resultados só vem melhorando de quatro e quatro anos, e a tendência é crescer. Muitos pontos positivos numa breve olhada apenas nos resultados, mas temos muita coisa que melhorar ainda, se observarmos de uma maneira mais ampla e mais afastada da abordagem sensacionalista. Vamos aos melhores momentos?

Alguns podem estar pensando agora: Poxa, lá vem posicionamento político. Sim! Vem sim, é claro! Deixar passar um fato pela simples comodidade de não problematizar a situação também é uma posição política. Como diria Max Weber: Neutro é o que já decidiu pelo mais forte. Enfim, mesmo que não se haja a intenção por trás da ação, ela favorecerá a interessados.

O resultado obtido pela Rafaela Silva no Judô é um dos fatos que temos a observar. A menina negra da Cidade de Deus foi a medalhista de ouro na categoria até 57 Kg no Judô, arrancando gritos de felicidade em todos cantos do país. Uma olimpíada anterior, mais precisamente em Londres, a mesma passou por uma situação muito constrangedora e humilhante. Seu insucesso lhe garantiu vaias, comentários racistas, entre outras atrocidades. A Rafaela é homossexual. Negra, homossexual e da Cidade de Deus. E daí? Nosso país ainda não aceita algumas destas características pessoais (e se souberem a opção partidária dela…), basta olhar para as estatísticas. Mas neste dia deu tudo certo.

Nas redes sociais, alguns grupos que tentam desmerecer o movimento feminista se manifestaram, colocando a vitória da brasileira como um exemplo meritocrático, totalmente individualista, indicando que a atleta nunca precisou de cotas nem de auxílio ou bolsa institucional, ou até do movimento feminista. O que é uma grande mentira. A atleta foi acolhida ainda jovem pelo instituto do também medalhista olímpico Flavio Canto, o instituto reação.

Sem falar que é bolsista do programa Bolsa Pódio. O intuito destes grupos é, culpabilizar os indivíduos, atribuindo a eles a responsabilidade total de seus resultados (da mesma forma que a atleta foi moralmente atacada em Londres). Claro que a atleta tem e possui responsabilidade em seu resultado, não estamos dizendo o contrário. Mas olhando para as condições objetivas que enfrentou na juventude, e o número de atletas que saem desta mesma realidade da Rafaela, perceberemos que a conta não bate. Deixo-lhe uma questão a ser pensada: Quantas medalhas de ouro não foram mortas por balas perdidas?

Se tratando do ataque ao movimento feminista (risos), é até de uma extrema ignorância imaginar que, num contexto histórico em que não se possuía direito a voto, direito de se expressar em público e acesso a algumas atividades classificadas como masculinas, as mulheres (feministas) não colaborassem com esta conquista que foi a participação nos jogos olímpicos. No início das olimpíadas modernas o barão de Colbertin vetou a participação das mulheres por questões culturais, antropológicas e até fisiológicas. Por conta da proibição do COI e da federação de atletismo amador a francesa Alice Melliat, fundou a Federação Esportiva Feminina Internacional (FEFI) em 1917. A Federação supervisionava recordes, estabelecia regras e promovia o esporte feminino.

Em 1922 a FEFI organizou os jogos olímpicos femininos que foi muito bem sucedido, alcançando reedições nos anos 1926, 1930 e 1934. O sucesso do evento pressionou o COI a integrar as mulheres em seu calendário, sem falar é claro, que isso traria aumento nos lucros da instituição.

E se você não acompanhou alguns fatos nos jogos olímpicos de 2016, acompanhe agora:

Não deu para a nadadora Pernambucana Joana Maranhão, após ser eliminada na prova dos 200 metros borboleta, a atleta recebeu algumas mensagens com ofensas e ameaças em suas redes sociais.  

“Não é possível alguém desejar que você seja estuprada ou que morra. Não precisa gostar de mim, mas é necessário ter respeito”, disse ela na época, chorando bastante (Jornal o tempo, 12/08/2016, Web. 17h57)”.

Os comentários foram colhidos pelo seu advogado, que já deu entrada na delegacia de Repressão à Crimes de Informática (DRCI), no Rio de Janeiro.

Não deu também para a atleta de saltos sincronizados Ingrid Oliveira. A atleta já teria um problema com sua parceira de saltos e a questão piorou por causa da atitude da Ingrid levar o também atleta de canoagem Pedro Henrique Gonçalves para dormir em seu alojamento. Isto para o COB (Comitê Olímpico do Brasil) é considerado uma falta grave. A atleta quase foi expulsa das olimpíadas. Diferente do que ocorreu com o atleta Pedro Henrique, que não sofreu nenhuma punição e seu nome em alguns veículos de comunicação é até preservado.

São sinais de que falta ainda muita luta pela frente. Principalmente se tratando dos veículos de comunicação. Alguns atribuem as conquistas femininas em comparativo a atletas masculinos. Não! A Marta não é o Neymar. A Rafaela não é o Aurélio Miguel, a Simone Biles não é o Bolt da ginástica. E é isso que se tem a oferecer para as atletas e guerreiras? Pela imprensa machista?

É preciso reconhecer o protagonismo das mulheres, principalmente seu protagonismo no passado. As pioneiras que lutaram para que hoje estas fantásticas mulheres nos apresentassem as técnicas e formas mais avançadas que os seres humanos podem desenvolver nos esportes. Que servirá de exemplo para as atletas que virão. Que são conquistas delas.

Daqui até conseguirmos, muita coisa ainda há de ser problematizada.

Leia também:

REFERÊNCIAS

http://www.efdeportes.com/efd179/mulheres-nos-jogos-olimpicos.htm

http://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/viewFile/368/431

http://www.otempo.com.br/hotsites/olimp%C3%ADadas-2016/ap%C3%B3s-receber-ofensas-e-amea%C3%A7as-joanna-maranh%C3%A3o-registra-queixa-1.1354350

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas/rio2016/noticia/2016/08/joanna-maranhao-vai-delegacia-no-rio-apos-insultos-na-internet.html

http://www.bombatomica.com.br/escandalo-na-vila-olimpica-rio2016/

https://www.facebook.com/notes/elson-moura/olimpiadas-2016-quando-mais-uma-vez-o-produto-oculta-o-processo/744209139015321

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