A luz que ilumina os bravos


Por alguns minutos a luminescência das medalhas penduradas na parede deram um colorido de um quase arco-íris no meu quarto. A manhã do campeonato chegou e fico a pensar em minhas conquistas. Todas estas premiações fazem parte de momentos muito especiais de minha história, me transformaram no que sou hoje. Mas não alteraram minha realidade.

Será que vai valer a pena?

São muitas pessoas que correm atrás deste lugar mais alto, algumas fazem de tudo pra chegar lá… De tudo mesmo… De onde será que vem tanta vontade de ganhar, nem que para isto tenha-se que burlar alguns códigos?

Nunca me questionei de onde vinha minha vontade de ser a primeira, lembro-me de tentar ser igual aos meninos da academia. Sempre voltavam dos campeonatos felizes, vaidosos… Alguns mudavam, outros continuavam os mesmos. Sempre gostei e admirei os que não mudavam.

O Sérgio me levará para o ginásio. Brother de treino, vai competir também, tento puxar uma conversa para aliviar um pouco a dúvida:

– Sérgio?

-Oi!

-Cara, o que te motiva a querer vencer um campeonato?

-Rê, ser reconhecido pelo trabalho desenvolvido em horas e horas de treino, levar tantos amassos dos mais graduados não pode ser em vão (risos).

-Mas fora isso, (pergunto), Você já se questionou porque temos sempre que provar a todos que somos o melhor?

-Gata, se você não faz o melhor, ninguém nunca te respeitará.

Sou a única desportista da minha família. Meu pai nunca ligou muito para as atividades físicas, por sinal, ele tinha trauma de infância de um professor que humilhava ele por ele não ser rápido ou técnico, como os outros meninos. Ele me contava que o professor nunca o ensinou nada de relevante, a não ser excluir aqueles que não se aproximavam do padrão de “atleta” que ele queria. Como poderia aprender algo?

Talvez por isso, ele fica tão feliz com minhas conquistas. Ele tinha muito receio por conta da experiência negativa da infância, que eu passasse pelo que ele passou, e sempre me alertava:

-Filha, nunca deixe que ninguém diga que você não é capaz. Mas nunca tente provar, a não ser a você mesmo que você é.

O que aumentou minha dúvida e me fez pensar tanto no resultado da competição de hoje foram duas conversas curiosas. Durante o treino, as meninas conversavam do meu lado e uma ficou muito chateada quando descobriu que outra colega pretendia prestar vestibular para o mesmo curso, medicina, muito concorrido por sinal.

A transformação no estado de humor chegou ao ponto de um simples rola parecer uma defesa de um cinturão de invicto. Fiquei muito assustada com a agressividade da menina após descobrir que sua colega de treino virou sua concorrente.

A outra conversa foi com meu pai, que perguntou sobre meus livros de filosofia do combate. Livros como arte da guerra. Pensei que ele estava interessado em voltar para o jiu-jitsu, mas a surpresa foi a resposta:

-Nosso chefe nos solicitou a leitura, disse que ajudaria a vencer os desafios das vendas, nos negócios. Temos que ser precisos como os samurais, não podemos dar chance para os outros.

E novamente a concorrência parece estar entranhada em tudo que fazemos hoje em dia. Olhar o outro como ameaça… Isso me deixa assustada.

Chego ao campeonato, verifico a chave e encontro uma adversária de outros campeonatos. Ela ministra voluntariamente aulas em uma escola, numa comunidade carente. Ela entrega para as crianças os quimonos que recebe do absoluto:

-Fala Renata!

-Oi Paula (respondo).

-Deixa te contar, hoje vai ser dureza, tenho que levar este absoluto. Não consigo patrocínio pra tocar o projeto, e cada dia fica mais difícil. Tenho um aluno faltando um quimono, tenho que levar este de todo jeito.

Percebi na fala da Paula uma segurança e uma perseverança de quem realmente tinha que levar este prêmio. Não bastasse a causa, ela nada contra uma corrente muito forte. Enquanto muitos viram as costas, ela se importa.

Chegamos até a semifinal e eu venci, a Paula também mas, lesionou o joelho. Mesmo assim se apresentou no coordenador de área para à final.

Fico frente a frente com minha primeira final no absoluto, a Paula caminha com dificuldade… Não será muito difícil vencer uma oponente cansada e lesionada.  

Eu lembro do meu pai, e sinto uma vontade de provar para mim que posso ser melhor do que todos imaginam… Ao ponto de entregar a luta para que a Paula entregue o quimono para o garoto. Ele merece a oportunidade que meu pai não teve quando criança.

Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros. Che Guevara

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