COTIDIANO DE UMA LUTADORA PARTE II


Fala, galera! Há um tempo atrás postamos a primeira parte desta crônica, e hoje chegamos com a continuação. Boa leitura!

“…O celular quase descarrega de tantas mensagens, evitei atender para não causar discussão, afinal estamos numa “confra” e sou muito de evitar coisas que não desejo para mim. Mas foi numa ida ao banheiro que notei a mensagem da Cecilia:

– Miga!!! Onde vc tá? O mestre preparou uma surpresa para vc!!!!

Já sabia o que era, durante a semana aconteceu algumas conversas sobre a responsabilidade de ser graduada no Jiu-Jitsu, sobre comportamento extra tatame, da imagem que um graduado tem que transmitir aos que não conhecem a arte… Faltou chão, deu um frio imenso na barriga… Aquele arrepio que iria da cabeça passando pela coluna me deixava quase que enjoada. Era aquilo que batalhei com sangue e suor dos treinos e competições durante dois anos e meio de persistência, inclusive, é o significado do meu nome, e por não persistir em um diálogo com o Felipe, como persisto nos campeonatos não batendo nos estrangulamentos e chaves de braço… Fui finalizada naquilo que tenho de melhor.

Volto para a mesa transtornada, sem clima nenhum de comemorar, aquela lágrima vacila sobre minha face e não percebo…Que engraçado, ele também não percebe… Sento e uma menina que estava com o grupo me pergunta:

– Aconteceu algo no banheiro?

Respondo – Você já abriu mão de coisas que você adora, pra ficar de boa com seu namorado?

– Ela responde – Sim, as vezes acho que isso é um mal de todos os homens.

Questiono – Ou será nosso?

Claro que não imaginaria que justamente hoje seria minha graduação surpresa, mas penso justamente pelo fato, se toda vez que eu ceder para as coisas ficarem de boa, quantas coisas vou ter que perder? Ele tem que entender o que é importante para mim também. Quantas vezes incentivei a não desistir de seu curso de direito, por que ele passava horas estudando… Sem me ver as vezes… Outra vez utilizei uma frase do mestre com ele: “Existe uma saída para tudo, no tatame e na vida”.

Durante o fim de semana fiquei pasma com os noticiários. Uma menina foi morta pelo ex-namorado por que terminou o namoro… nossa, isso assusta muito, isso faz pensar muito, parece que nos tornamos objetos de meninos mimados, que não aceitam o não como resposta. Como se tivéssemos que aceitar… E esta é a condição da mulher. Só que não, cada vez mais entendo a luta de algumas mulheres por seus direitos, cada vez mais entendo a necessidade de haver o feminismo, o discurso político, ideológico e filosófico sobre os direitos da mulher e sobre igualdade, não estamos mais no século XVII. Decidi conversar com Felipe sobre a importância do Jiu-Jitsu na minha vida, o que ele representa para mim. Não sei também com que cara chegarei no treino hoje.

A primeira luta do campeonato cotidiano não será com nenhum dos dois, será com o supervisor, Guilherme. Chego ao trabalho e peço um minuto da atenção dele, precisava falar. Expliquei os meus objetivos no trabalho e principalmente, que não tinha intenção nenhuma de antagonizar nossa relação. Entendo sua posição mas não observo a compreensão para comigo. Ele ficou mais tranquilo quando percebeu que não queria ocupar sua função, este clima competitivo, de disputa que nossa sociedade alimenta, fez com que o Guilherme me olhasse como inimiga, e pelo fato de ser mulher e academicamente capacitada, aumentava a insegurança dele.

Passamos a contribuir mais com nossos trabalhos, eu o ajudava e vice e versa. Faltavam duas lutas ainda, enviei uma mensagem para Felipe, precisamos conversar sobre muitas coisas, ao mesmo tempo recebo uma mensagem do mestre falando sobre a competição do fim de semana. Na faixa roxa ainda, ele deve ter ficado triste… enfim, é uma graduação de responsabilidade, há um significado muito especial para o mestre os seus alunos mais graduados. Aceito participar. Felipe me responde… fico feliz pela possibilidade de resolver as coisas.

Serão as duas lutas mais importantes…

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