Fabiana “Fafá” Pereira: os altos e baixos de uma campeã mundial de jiu jitsu


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O Bjj Girls Mag teve a honra de bater um papo com a atleta faixa preta Fabiana Pereira Santos, que nos conta um pouco da sua origem no Jiu-Jitsu e da trajetória que a levou ao lugar mais alto de vários pódios em 2015. Baiana, residente em Boa Vista – RR, 35 anos, mãe da pequena Maria Eduarda Adliz, esposa do Eduardo Carneiro, administradora e atuando em um escritório de contabilidade. Além disso, faixa marrom de Judô, faixa preta de Jiu-Jitsu, diretora de Eventos da Federação de Jiu-Jitsu do Estado de Roraima (FJJERR), e uma guerreira nata. Vamos conhecer mais sobre essa fera.

Infância

Sempre apaixonada por esportes desde pequena, ela nos conta que, tentando se encontrar no mundo dos esportes, ainda tentou jogar handebol, vôlei e futebol. Mas nunca levou muito jeito: “eu era muito bruta, saia esbarrando as meninas e nunca dava certo, risos”. Quando tinha 12 anos, uma academia de judô mudou-se para os “fundos” de sua casa, e o tatame parecia lhe aguardar: foi amor à primeira vista! Sempre que possível Fabiana estava lá, treinando e dando seu melhor.

Desde o início descobriu-se competidora, e logo estava competindo no judô. Chegou a disputar duas finais com a atleta Edinanci Silva (ex atleta olímpica). As duas se enfrentaram em 1998, na Copa Rio Internacional de Judô, e em 2000 no Nacional Feminino do Sesc. Nas duas competições se enfrentaram na final da categoria. Na época, Edinanci já lutava na categoria adulto e Fabiana ainda era da juvenil. A mesma ainda competiu bastante no judô e colecionou diversos títulos quando ainda morava em Vitória da Conquista – BA.

De família humilde, seu primeiro kimono de judô foi presente de sua avó, dona Zilda (in memoriam). Emocionada, ela relata que sua avó Zilda era sua maior incentivadora, que sempre se preocupava em saber de seus treinos, disputas e resultados. Mas que em toda a sua família, também não teve problemas para treinar. A família apenas demonstrava muita preocupação com as viagens que ela fazia para competir, já que começou tão cedo a trilhar este caminho.

Os obstáculos

Em 2002 a atleta sofreu uma lesão no joelho que a afastou dos tatames de judô por algum tempo. Foi quando um professor de Jiu-Jitsu da academia que ela treinava judô a convidou para treinar Jiu-Jitsu, acreditando no potencial da atleta judoca. Ela começou a treinar e percebeu que o Jiu-Jitsu não forçava tanto o joelho e não sentia tantas dores quanto no judô (que exigia mais movimentos de quedas), o que acabou a afastando mais da primeira arte, e a fazendo apaixonar-se mais pela arte suave.

Logo de início, seu professor a incentivou a participar da sua primeira competição de Jiu-Jitsu, e treinando apenas uma semana, ela foi. A atleta nos conta que não tinha muito tempo para treinar quando ainda morava em Vitória, pois cursava faculdade e trabalhava. Quando estava para ir nas competições de jiu jitsu ela treinava uma ou duas semanas antes para competir, sendo que sua base era de judô, e nem sempre os resultados eram tão bons. Fabiana credita a confiança em seu potencial e o incentivo para que ela competisse aos seus primeiros professores, Gleison Oliveira e Gera Costa, que lhe deram muito apoio e incentivo no começo de tudo.

Caindo de cabeça no esporte

Em novembro de 2007 ela mudou-se para Boa Vista – e foi quando ela realmente se entregou ao esporte, iniciando sua trajetória de treinos na Associação Trindade sob instruções do mestre Daniel Trindade. Foi nesse período que ela realmente passou a se dedicar e a aprender Jiu-Jitsu, e cada vez mais competir. Ela ressalta que nunca treinou apenas pelos benefícios que o Jiu-Jitsu traz à qualidade de vida e saúde: sempre treinou para competir, apesar de todos os custos e dificuldades de conseguir estar sempre nos campeonatos. Em suas primeiras competições deixava de treinar para buscar patrocínio, andando de loja em loja, de empresa em empresa. Ficava sempre muito cansada, rendia pouco nos treinos, e nas competições não tinha sempre os resultados esperados. Sempre foi uma batalha à parte conseguir apoio e recursos para tal, mas a determinação e a perseverança também sempre lhe acompanharam.

Em setembro de 2012 a atleta decidiu focar ainda mais nos treinos e queria que o ano de 2013 fosse o seu melhor ano. Com o apoio do marido, Eduardo, Fabiana começou uma incansável rotina de treinos, e afirma que, independente de conseguir o lugar mais alto do pódio ou não, ela queria ter a certeza de que deu o máximo de si. Em janeiro de 2013 a atleta competiu em Manaus – AM, mas já não estava se sentindo tão bem. Fazendo um trabalho intensivo para a perda de peso, não estava conseguindo resultados. Em fevereiro do mesmo ano, Fabiana estava inscrita para a seletiva do Abu Dhabi, em Manaus, e continuou treinando forte, mas, não se sentindo muito bem.  Fez  então alguns exames e descobriu estar grávida. Viajou, não lutou, e apenas recebeu a medalha de 2ª colocada.

O “susto” da gravidez

Com a gravidez não planejada, Fafá teve seu momento de felicidade e choque de estar em um momento tão incrível na vida de uma mulher, e ao mesmo tempo, ver que não poderia se dedicar aos treinos conforme tinha se programado. E os planos de fazer do ano de 2013 o seu melhor ano foram por água abaixo acabaram se cumprindo: em 2013 nasceu a pequena Maria Eduarda Adliz. Durante o período de gravidez, ela se afastou dos treinos e dos exercícios de forma geral. Com o psicológico abalado, ela confessa ter passado momentos difíceis, o que acabou contribuindo para um sobre peso de 31kg. Parou de treinar, mas continuou dando suporte a Federação, e até cinco dias antes de ter sua filha ela estava atuando na organização dos eventos.

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Três meses após o nascimento de Duda (apelido carinhoso que deu à filha) ela voltou a correr em ritmo leve, e a treinar boxe e MMA. À medida que o corpo se reestabelecia e o médico ia liberando, ela foi voltando ao ritmo. Seis meses após ela voltou ao jiu jitsu e teve muita dificuldade, pois, com sobrepeso e um tempo parada, ela estava com ritmo naturalmente mais lento.

É uma situação normal para quem acabou de se tornar mãe, mas para uma mãe competidora, não era uma situação para se acomodar. Logo que voltou aos treinos, ela, o marido e a filha foram para a Venezuela competir. Fabiana ressalta que, com o nascimento da filha, entre tantas outras coisas, ela aprendeu que deveria competir se preocupando apenas com ela e com o prazer que ela sentia em fazer aquilo, e não mais competir pensando no que os outros pensariam, caso ela fosse e não voltasse com medalhas. Isso tornou toda a trajetória mais leve, e a partir daí, a determinação, o foco e a busca por essa sensação de prazer e diversão foram constantes, e as vitórias, naturalmente, foram chegando.

Voltando com força total

Em 2015, dois anos após a tentativa de ter o melhor ano da vida (e teve, mas não competindo), Fabiana conseguiu retomar seu peso com melhor rendimento e maior índice de massa magra. Voltou a competir com toda sua força de vontade e teve um ano incrível e marcado, entre outras coisas, pelas grandes vitórias que teve em uma semana do mês de julho. Nos dias 23 e 24 de julho, em São Paulo, a atleta conquistou o Campeonato Mundial de Jiu Jitsu (CBJJE), e seguiu para o Rio de Janeiro, onde disputou o Rio Open (IBJJF) e o Master Internacional (IBJJF), onde sagrou-se novamente campeã. Ao todo foram sete medalhas, sendo seis douradas. Vejamos:

  • Campeã Mundial de Jiu Jitsu Esportivo (CBJJE) absoluto, faixa preta, adulto;
  • Campeã Mundial de Jiu Jitsu Esportivo (CBJJE) pesadíssimo, faixa preta, adulto;
  • Campeã Mundial de Jiu Jitsu Esportivo (CBJJE) pesadíssimo, faixa preta, master;
  • Campeã Master Internacional de Jiu Jitsu (IBJJF) faixa preta, máster 1;
  • Campeã Rio Winter Open Internacional de Jiu Jitsu (IBJJF) pesado, faixa preta, adulto;
  • Vice – Campeã Absoluto Rio Winter Open Internacional de Jiu Jitsu (IBJJF) faixa preta, adulto.

fafa mundial

Além do trabalho em um escritório de contabilidade, onde conta com o apoio de quem ela chama de “paitrão”, que deixa seus horários de trabalho mais flexíveis, o treino físico na academia, o treino técnico na equipe Zenith North, os eventos da Federação de Jiu Jitsu do Estado de Roraima (FJJERR), a casa e a família, Fabiana Pereira está trabalhando em um projeto para 2016, para difundir o Jiu-Jitsu feminino na sua região. O projeto tem o objetivo de desmistificar o Jiu-Jitsu como esporte agressivo ou exclusivamente masculino, e fazer com que mais mulheres conheçam os benefícios dessa arte.

Atualmente, a atleta encontra-se em ritmo acelerado de treinos com os professores Pablo Rivero e Diego Borges (e toda a equipe Zenith North) para disputar o Campeonato Sulamericano (IBJJF), dias 28 e 29 de dezembro, em Barueri, São Paulo. Na rotina de treinos e suplementação, a atleta conta com o apoio incondicional do marido, Eduardo, que também é faixa preta de jiu jitsu, e conta que sempre se revezaram nos treinos: enquanto um toma conta da filha, que sempre os acompanha em treinos e viagens de competição, o outro treina.

E já houve momentos em que o marido precisou parar totalmente os treinos para cuidar da filha, para que Fabiana pudesse se dedicar mais e competir.  É assim desde o nascimento da filha, o que faz com que seja possível toda a dedicação do casal ao jiu jitsu. Para conseguir recursos para custear a viagem para São Paulo, em dezembro, a atleta está vendendo rifas. O bilhete está sendo vendido a R$ 10,00, e o sorteio será dia 25 de novembro. Os prêmios são um kimono adulto trançado e um kit de suplementos. Quem puder ajudar comprando rifas ou patrocinando essa grande atleta, entre em contato com Fabiana (contatos ao final da matéria).

A luta por apoio e patrocínio

Fafá conta que gostaria de ter condições financeiras para poder competir ainda mais, mas que essa não é a realidade. Mas faz questão de afirmar que, por ser a única mulher competindo no esporte e categoria no estado, acaba tendo mais facilidade do que os homens para conseguir algum apoio. Para suas batalhas, ela garante que nunca está sozinha, que sua família e seus amigos lhe dão forças. Apesar de já se enquadrar nas categorias master, ela continua competindo na adulto, e confessa que as vezes prefere se inscrever na categoria pesadíssimo, apenas para eu não precise “enfrentar” a balança antes das competições (um pouco de trauma do sobrepeso pós gravidez), e que, o que faz a diferença para suas vitórias é sua força de vontade, sua fé e humildade.

Estamos falando de uma atleta de ponta, dona de vários títulos, dentre os quais:

  • 3 vezes campeã Mundial de jiu jitsu CBJJE (nas faixas roxa, marrom e preta);
  • 2 vezes campeã Brasileira pela CBJJ;
  • 2 vezes campeã Pan-americana CBJJE;
  • 4 vezes campeã Internacional máster IBJJF;
  • 4 vezes campeã Rio Open Winter IBJJF;
  • 2 vezes campeã Manaus Open IBJJF;
  • 5 vezes campeã Roraimense;
  • 5 vezes campeã Amazonense;
  • 4 vezes campeã da Copa América Internacional CBJJE;
  • Eleita por 4 anos a melhor atleta do estado do Amazonas;
  • Eleita por 6 anos a melhor atleta do estado de Roraima;
  • Eleita por 4 anos consecutivos a melhor atleta da Bahia, em sua categoria de judô;

E ainda teve duas lutas de MMA: A primeira em 2009, o Roraima Show Fight, ganhou aos 35 segundos, por nocaute técnico, e a segunda em 2012, no Pink Fight, no Rio de Janeiro, onde ganho aos 37 segundos, por finalização.

No ranking da IBJJF, a atleta é 29ª na categoria faixa preta, adulto, e 4ª na categoria faixa preta máster, e vale ressaltar que ela não leva uma vida exclusivamente de atleta.

O currículo é de uma verdadeira campeã. As superações da vida dessa atleta e ser humano incrível é marcada por uma grande determinação, força de vontade que a leva sempre a superar seus próprios limites. Para ela, ainda lhe faltam alguns títulos internacionais para completar seu currículo. O maior desafio é financeiro, pois o resto ela tem: “hoje eu luto com mais amor ao jiu jitsu, eu luto com mais prazer do que antes. Lógico que ninguém gosta de perder, mas hoje se eu perder eu só quero, pelo menos, ter dado o melhor de mim.”

Se você quiser e puder ajudar Fabiana, entre em contato pelo Instagram @fafabjj, ou pelo telefone (95) 98115887.

E você, que atleta gostaria de ver tendo sua história contada aqui?

Até a próxima, gente!

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